Os desafios da segurança na construção

FOTO MARTINELLE/ PIXABAY
O setor da construção continua, infelizmente, a ser palco de vários acidentes de trabalho, muitos deles graves ou mortais, grande parte por quedas em altura. Se fizermos um rescaldo dos últimos anos, percebemos que os desafios são cada vez mais complexos e criam um ambiente onde a segurança, muitas vezes, não tem o espaço que merece:
- A cultura de segurança tem evoluído principalmente nas grandes empresas que, com uma cultura de segurança madura e reconhecendo que a segurança é fundamental para o sucesso dos projetos, já estabeleceram nas suas prioridades o garantir das condições de segurança e saúde necessárias. Mas, o problema é que geralmente estas empresas dependem de PMEs subcontratadas que, em grande parte, tem bastante dificuldade de acompanhar esse nível de exigência e possuem limitada capacidade técnica, e uma muito reduzida cultura de segurança. Ou seja, são empresas que não investem na segurança, por exemplo, ao não fornecerem, de modo gratuito, conforme legalmente estipulado, os equipamentos de proteção individual ao trabalhador;
- A liderança, em termos de segurança, é geralmente fraca. Deve existir uma liderança, a todos os níveis: que não deixe dúvidas no grau de tolerância a aceitar no cada vez mais pertinente dilema segurança/produção; que sirva de maestro para a orquestra de múltiplas agendas e sensibilidades; que aceite que não sabe tudo; que maximize o potencial de cada colaborador dentro de uma equipa saudável; e, que trate os trabalhadores de forma construtiva;
- Ainda não se pensa suficientemente na segurança durante o projeto. Projetam-se estruturas e infraestruturas arrojadas, com geometrias complexas, fachadas complexas – mas muitas vezes sem se considerar como serão construídas, que riscos vão surgir e que soluções construtivas se tornam perigosas. A segurança tem de nascer no projeto. Se não nascer aí, chega tarde à obra – e quando chega tarde, chega com dificuldade e chega com custo, e envolvendo a segurança das vidas humanas;
- Falta de mão-de-obra especializada: a saída dos trabalhadores portugueses para o estrangeiro, particularmente a partir da crise de 2012-2016 (levando consigo o conhecimento acumulado em décadas de experiência prática) e a atual entrada de mão-de-obra estrangeira em Portugal para colmatar as necessidades geradas pelo desproporcionado volume de obras em curso e a iniciar implica que muitos destes trabalhadores estrangeiros aparecem nas obras sem possuir o “saber-fazer” básico. Adicionalmente, esses trabalhadores são provenientes de países onde as condições de trabalho são deficitárias, e aqui não recebem a devida formação contínua e especializada sobre os riscos associados à sua atividade. A isto acresce a barreira linguística. Por outro lado, as gerações mais jovens começam a mudar as suas inclinações vocacionais afastando-se de carreiras no setor da construção, um setor tipicamente visto como mais exigente, com mais dificuldades de conciliação entre a vida profissional e pessoal, relativamente a setores como as novas tecnologias;
- Não reconhecimento e assunção do papel estratégico das funções de Coordenador de Segurança e Saúde em fases de projeto e de obra. Muitas vezes são vistos apenas como exigência legal, e não como parte integrante do sucesso do projeto. Não se trata apenas de validar planos de segurança ou assinar documentos. Trata-se de: influenciar práticas, antecipar riscos, promover comportamentos seguros, e articular equipas; (...)
Autor da Coluna Segurança na Construção
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