Avaliação do comportamento sísmico e reforço de abóbadas de aresta

Figura 1: modelo experimental não reforçado

As abóbadas de aresta de alvenaria correspondem a um elemento estrutural muito frequente em edifícios históricos, tais como igrejas, catedrais, mosteiros. As inspeções pós-sismo efetuadas em edifícios históricos têm demonstrado a elevada vulnerabilidade das abóbadas às ações dinâmicas.

Neste sentido, a análise do comportamento dinâmico tridimensional das abóbadas de aresta é fundamental para contribuir eficazmente para a preservação das construções históricas. No entanto, a maioria dos trabalhos desenvolvidos neste tópico focam-se na análise bidimensional das abóbadas, modelando-as como sequência de arcos, para ações estáticas e dinâmicas. Recentemente, têm sido desenvolvidos estudos que envolvem a análise tridimensional, sobretudo estudos numéricos e experimentais com modelos à escala reduzida com aplicações de ações estáticas ou quase-estáticas (forças e deslocamentos nos apoios).

Face ao exposto anteriormente, esta comunicação apresenta um estudo experimental e numérico sobre o comportamento dinâmico de uma abóbada de aresta de alvenaria à escala real para ação sísmica, e pretende contribuir para o melhor entendimento do comportamento dinâmico tridimensional das abóbadas e, consequentemente, para a proteção dos edifícios históricos de alvenaria.

O estudo experimental foi efetuado com recurso à plataforma sísmica triaxial do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC). Foi construída uma abóbada de aresta de alvenaria à escala real, com tijolos sólidos, juntas com argamassa à base de cal, 3,50 x 350 m2 em planta, 0,12 m espessura, dois apoios fixos, dois apoios deslizantes, e dois tirantes metálicos em três vãos (Figura 1). Os apoios do modelo pretendem simular as condições de fronteira assimétricas (rigidez e massa) das abóbadas das naves laterais de igrejas e avaliar o comportamento da abóbada para esforços de corte no plano. O modelo foi ensaiado aplicando dois acelerogramas do sismo de L'Aquila (Itália, 2009, PGA = 0,43 g) nas duas direções horizontais com amplitude crescente, até causar dano severo. Antes do primeiro e após cada ensaio sísmico, foram realizados ensaios de identificação dinâmica com vibração forçada, tendo por objetivo avaliar a redução das frequências dos modos de vibração do modelo e, consequentemente, a redução de rigidez e evolução do dano. Após causar dano severo (75 % da amplitude do sismo), o modelo foi reparado e reforçado através da aplicação de reboco armado no extradorso da abóbada. A reparação do modelo foi efetuada através de injeção das fendas com argamassa fluída à base de cal.

O reboco armado é constituído por: (1) uma camada de argamassa à base de cal hidráulica natural, aplicado sobre o extradorso da abóbada; (2) a rede biaxial de fibra de basalto e micro cabos de aço inox AISI 304 termo soldada e protegida com tratamento resistente aos álcalis; (3) uma camada de argamassa à base de cal hidráulica natural, aplicada sobre a rede biaxial de fibra. O reboco armado foi ainda ligado à alvenaria do enchimento de cada apoio, com recurso à realização de furos preenchidos com rede de fibra de vidro e micro cabos em aço galvanizado e argamassa fluída à base de cal. A resposta dos modelos não reforçado e reforçado foi medida através da aplicação de acelerómetros no extradorso da abóbada (acelerações), sistema ótico nos apoios e no centro da abóbada (deslocamentos), transdutores lineares de deslocamento nos apoios e células de carga nos tirantes (força). O desempenho dinâmico dos modelos foi analisado em termos de mecanismo de colapso, padrão de dano, acelerações e deslocamento máximos, e indicador de dano determinado através da redução das frequências estimadas nos ensaios de vibração dinâmica.

Os ensaios efetuados no modelo não reforçado (10 %, 25 %, 50 %, 75 % da amplitude do sismo) permitiram verificar que a abóbada apresenta fendas diagonais (extradorso e intradorso) e junto do enchimento dos apoios, associadas ao mecanismo de corte no plano e aos deslocamentos relativos significativos entre os dois alinhamentos com diferentes tipos de apoio (fixos e deslizantes). No sismo de 75 %, o modelo não reforçado apresentou dano com severidade moderada a elevada (Figura 3a). As fendas diagonais da abóbada iniciaram-se no sismo de 50 %. Durante os sismos de 10 % e 25 %, o modelo apresentou dano muito reduzido. (...)

Em co-autoria com Nicoletta Bianchini, Professora Convidada, Universidade de West London, Reino Unido
Paulo B. Lourenço, Professor Catedrático, ISISE, Departamento de Engenharia Civil, Universidade do Minho
Chiara Calderini, DICCA, Universidade de Génova, Itália

Leia o artigo completo na Construção Magazine nº 132, março/ abril de 2026
Nuno Mendes

Investigador, ISIS, Universidade do Minho

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