Projetar a cidade num sistema climático em grande mudança

FOTO LAPPING/ PIXABAY

O risco de sobreaquecimento provocado pelas ilhas de calor urbano (ICU)

As cidades contemporâneas enfrentam hoje situações de calor extremo que amplificam os riscos para a saúde, o conforto térmico e a qualidade de vida. São três os fatores de preocupação: i) o aquecimento global; ii) as ondas de calor, cada vez mais intensas; iii) as Ilhas de Calor Urbano (ICU), produzidas pelas próprias cidades, nos locais mais densos, mal ventilados e sem vegetação. Estas dimensões reforçam-se mutuamente: o aquecimento global eleva o fundo térmico, as ondas de calor introduzem picos extremos de temperatura e a ilha de calor urbano intensifica esses efeitos no interior da cidade, sobretudo à noite, quando o arrefecimento é mais lento do que no meio rural. O calor torna-se, assim, um problema urbano, social e de saúde pública, exigindo mitigação, adaptação e proteção dos grupos mais vulneráveis.

A frase atribuída a John Holdren, “mitigar, adap­tar ou sofrer”, relativa às opções da humanida­de perante as alterações climáticas, adquire nas cidades uma expressão particularmente concreta. Mitigar consiste em atuar sobre as causas do aquecimento, reduzindo emissões, tornando o consumo energético mais eficiente. Criar medidas de mitigação nas cidades é uma opção indispensável, mas particularmente difícil, porque implica atuar sobre sistemas complexos, energia, mobilidade, construção, consumo, uso do solo entre outros fatores. Embora as cidades possam reduzir emissões, promover a descarbonização depende da concertação entre estados e grandes regiões. Sem políticas internacionais coerentes de descarbonização energética, financiamento, regulação e proteção ambiental, a mitigação urbana permanece limitada. Além disso, este esforço não pode ser separado da preservação dos grandes sumidouros de carbono do plane­ta, florestas, solos, zonas húmidas, oceanos e outros grandes ecossistemas naturais, cuja destruição compromete a capacidade global de absorver carbono e agrava o aquecimento que as cidades procuram combater.

O balanço energético urbano e a itensidade das ICU

O fator mais passível de controlo é o padrão térmico conhecido como ilha de calor urbano (ICU), que ocorre quando a atmosfera urbana apresenta temperaturas superiores às dos espaços envolventes, mais ruralizados. Este fenómeno resulta da impermeabilização dos solos, da escassez de vegetação, do uso de materiais de construção inadequados, do calor libertado pelas atividades humanas e da fraca ventilação, tornando as áreas urbanas frequentemente mais quentes. As ICU tendem a ser mais intensas no final do dia e durante o período noturno.

A forma mais simplificada de medir a sua intensidade (IICU), é através da fórmula ΔTu-r (diferença da temperatura, num determinado momento, num ponto da cidade, dentro da camada limite urbana inferior1, e em espaço rural). Mas independentemente do método utilizado para calcular a IICU (Lopes, 2013), é necessário resolver as múltiplas reflexões nas superfícies, os fluxos turbulentos de calor (sensível e latente), a advecção e a libertação do calor antrópico decorrente das nossas ativi­dades (motores de combustão, aparelhos de ar condicionado, calor metabólico, etc.) (...)

Autores António Lopes1,2, Cláudia Reis1,2, Luiz Fernando Kowalski3, Tiago Silva1,2 e Márcia Matias1,2
1 Universidade de Lisboa, Instituto de Geografia e Ordenamento do Território (IGOT), Centro de Estudos Geográficos, Lisboa, Portugal.
2 Laboratório Associado TERRA, Portugal.
3 Departamento de Engenharia, Centro Universitário Adventista de São Paulo (UNASP), Brasil.

Leia o artigo publicado na Construção Magazine nº134, julho/ agosto de 2026, dedicada ao tema "Desafios das alterações climáticas na construção"

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