Desafios das alterações climáticas na construção

FOTO LUIS PEDRO FONSECA/ SHUTTERSTOCK
Este número da Construção Magazine aborda um dos desafios mais incontornáveis e atuais para o setor: os efeitos das alterações climáticas na construção.
As alterações climáticas estão a modificar os pressupostos que, durante décadas, orientaram o planeamento, o projeto, a construção e a manutenção de edifícios e infraestruturas. O aumento das temperaturas, a intensificação das temperaturas extremas, a alteração dos regimes de precipitação, a subida do nível médio das águas do mar e a maior frequência de fenómenos meteorológicos extremos obrigam o setor a projetar para condições que já não podem ser inferidas exclusivamente a partir dos requisitos atuais.
Os artigos reunidos neste número mostram como esta transformação se manifesta a diferentes escalas: no território e nas cidades, nos edifícios e nas infraestruturas, nos elementos construtivos e nos próprios materiais.
Nas cidades, as ondas de calor são amplificadas pela impermeabilização do solo, pela escassez de vegetação, pela fraca ventilação e pela capacidade dos diferentes elementos em ambiente urbano para armazenar e libertar calor. A adaptação exige, por isso, intervenções integradas que combinem soluções de base natural, sombreamento, ventilação, gestão eficiente da água e uma seleção criteriosa dos materiais. À escala dos edifícios e das infraestruturas, os fenómenos extremos recentes demonstram a vulnerabilidade de coberturas, fachadas, redes de transporte e sistemas de drenagem. Os danos não se limitam aos elementos estruturais. De facto, componentes e elementos sem função estrutural podem acarretar perdas económicas significativas, interromper serviços essenciais e prolongar os processos de recuperação.
Contudo, os efeitos das alterações climáticas não se revelam apenas através de acontecimentos súbitos e facilmente observáveis. Existe também uma degradação progressiva e invisível do património construído. As variações de temperatura e humidade, a exposição a cloretos e a maior concentração de dióxido de carbono podem acelerar a corrosão das armaduras, a carbonatação e outros mecanismos de deterioração. Estruturas concebidas para condições ambientais patentes nos regulamentos atuais poderão, assim, apresentar vidas úteis inferiores às previstas e exigir intervenções mais frequentes, profundas e onerosas, num contexto em que os recursos disponíveis para a manutenção são necessariamente limitados.
A tempestade Kristin, que recentemente atingiu Portugal, com prejuízos estimados em 5,3 mil milhões de euros, tornou particularmente evidente a natureza sistémica do risco climático. Os ventos extremos, a precipitação intensa e as cheias podem desencadear danos em cascata em edifícios, diques, pontes, estradas e redes de energia e telecomunicações. Esta tempestade demonstrou ainda que os impactos não resultam apenas da intensidade dos fenómenos, mas também da vulnerabilidade acumulada do território e do parque construído. A análise isolada de cada perigo ou ativo é, por isso, insuficiente. Importa considerar eventos compostos, dependências entre infraestruturas e a dimensão social da vulnerabilidade.
Para responder a este desafio, é essencial melhorar a observação, a informação e a capacidade de antecipação. Redes de monitorização, levantamentos microclimáticos, modelos físicos e numéricos, inspeções sistemáticas e ferramentas preditivas podem apoiar decisões mais robustas. Portugal necessita igualmente de bases de dados consistentes sobre exposição, danos e desempenho do edificado, capazes de sustentar a atualização dos regulamentos, a definição de prioridades de intervenção e a avaliação da eficácia das medidas adotadas. A implementação da nova geração de Eurocódigos e da legislação nacional associada constitui, neste contexto, uma oportunidade que importa aproveitar.
Mas a adaptação às alterações climáticas não é apenas uma questão técnica ou regulamentar. É também económica, social e organizacional. Exige planeamento de longo prazo, investimento continuado na manutenção do património existente, articulação entre disciplinas e instituições e uma cultura de preparação e prevenção orientadas pelo tipo e nível de risco. Exige ainda reconhecer que mitigação e adaptação são indissociáveis: adaptar o ambiente construído às novas condições climáticas não reduz a urgência de diminuir as emissões e o consumo de recursos associados à construção e à reabilitação.
A transição para um ambiente construído mais resiliente será inevitavelmente contínua e terá de ocorrer em múltiplas escalas. Os artigos reunidos neste número demonstram a dimensão do desafio, mas também o conhecimento e as ferramentas já disponíveis para o enfrentar. Mais do que reparar os danos depois de cada evento, importa aprender, antecipar e transformar. O futuro da construção dependerá da capacidade de projetar, construir e gerir para exigências climáticas cada vez mais rigorosas.
Diretor da Construção Magazine / Professor na FEUP
Se quiser colocar alguma questão, envie-me um email para info@construcaomagazine.pt
Outros artigos que lhe podem interessar