A Bauhaus do Mar - Uma visão de Portugal para a Nova Bauhaus Europeia

FOTO LEANDRO SILVA/ UNSPLASH
Como os recentes eventos em Portugal demonstraram, as cidades costeiras e ribeirinhas de todo o mundo enfrentam uma tempestade perfeita de crises convergentes. Eventos climáticos extremos, cada vez mais frequentes e intensos, afetam as populações junto às bacias hidrográficas; o aumento do nível do mar erode o litoral e a poluição marinha transforma ecossistemas outrora prósperos em zonas de risco. No entanto, apesar da urgência, as nossas respostas permanecem presas a paradigmas ultrapassados — do ordenamento do território à gestão e monitorização de infraestruturas críticas — que deixam populações, actividades económicas e ecossistemas devastados em poucos dias.
Desde as estruturas do Estado fragmentadas e desenhadas para uma realidade passada, às políticas públicas rígidas e desfasadas da realidade dinâmica das comunidades, às tecnologias “inteligentes” que só nos tornam mais dependentes de infraestruturas críticas, como vimos, elas próprias em risco face a eventos extremos. Esta nova realidade vertiginosa e complexa exige soluções inovadoras, como as baseadas na natureza e, acima de tudo, uma nova atitude e uma pedagogia que coloquem promotores, entidades públicas e comunidades em diálogo, e não em oposição, perante as soluções interdisciplinares que se impõem face à melhor evidência científica que temos. E não é necessário ir aos países nórdicos para aprendermos a implementar novas abordagens. Temos em Portugal, por exemplo, o Parque Urbano da Várzea, em Setúbal, uma ampla estrutura de drenagem verde que conjuga soluções hidráulicas com um refúgio climático que protegeu a cidade durante as recentes tempestades. Esta infraestrutura, que também protege da erosão e das ondas de calor, é igualmente um espaço de educação ambiental e de promoção da biodiversidade.
A Nova Bauhaus Europeia (NBE) é uma iniciativa da União Europeia que visa tornar os sítios onde vivemos — edifícios, bairros, espaços públicos — mais bonitos, sustentáveis e inclusivos. Em dezembro de 2025, a Comissão Europeia propôs que os governos dos Estados-Membros passem a integrar estes princípios nas suas políticas e financiamentos, por exemplo, dando prioridade à renovação de edifícios existentes em vez de construir de raiz, usando materiais mais ecológicos como a madeira, criando mais espaços verdes nas cidades para lidar com ondas de calor e cheias, e envolvendo as comunidades locais nas decisões sobre o desenvolvimento dos seus bairros e aplicando soluções baseadas na natureza na reconstrução e adaptação de zonas de risco climático. Embora inicialmente envolvida em alguma controvérsia por recuperar a famosa Bauhaus — a revolucionária escola de arte, design e arquitectura fundada em 1919 em Weimar —, passou a ser um instrumento fundamental para mobilizar os atores perante a necessidade de envolver comunidades nas soluções cada vez mais necessárias para que a Europa seja o primeiro continente neutro em emissões até 2050. Se esta visão pareceu uma ameaça nos últimos 12 meses, muito pelo efeito de contágio das políticas populistas dos EUA, a recente guerra do Irão veio rapidamente nos confrontar com uma realidade incontornável.
A Bauhaus do Mar (BoS), coordenada por uma equipa interdisciplinar do Instituto Superior Técnico, foi a primeira visão da NEB a emergir em Portugal e procura criar espaços de experimentação para intervenções que envolvam este nexo entre natureza, água e comunidades. Foi o único projecto farol financiado e coordenado por um país do Sul da Europa num movimento que inclui também intervenções focadas na economia circular, na construção sustentável e na habitação inclusiva. Implementado em seis cidades costeiras europeias - incluindo um projeto-piloto de dois anos em Lisboa e Oeiras - o BoS oferece algo que os arquitectos e engenheiros raramente encontram: uma metodologia sistemática para o design regenerativo das zonas costeiras e ribeirinhas alinhada com os princípios da Nova Bauhaus Europeia.
A UE já investiu 1,4 mil milhões de euros na iniciativa e quer agora que cada país vá mais longe — atraindo investimento privado, formando profissionais da construção em práticas sustentáveis, através da Academia NBE, e desenvolvendo projetos-farol em todos os Estados-Membros. No fundo, é uma tentativa de transformar a forma como construímos e habitamos na Europa, juntando sustentabilidade ambiental, inovação, cultura e inclusão social num único quadro de ação política.
O Problema das abordagens tradicionais
A gestão tradicional das zonas costeiras e ribeirinhas baseia-se no que os engenheiros conhecem bem: paredões marítimos, aprofundamento de portos, diques e albufeiras, ordenamento costeiro e planos de gestão integrada. Estas abordagens tratam a natureza e os ecossistemas marinhos como condições de fundo ou como restrições a contornar, priorizando a proteção de povoações humanas e de infraestruturas. (...)
Autor Nuno Jardim Nunes
Professor Catedrático do Instituto Superior Técnico – Universidade de Lisboa
Coordenador da Bauhaus do Mar
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