De Ian a Kristin: avaliação de danos e resiliência face a eventos climáticos extremos

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FOTO ANDREIA_VEIGA/ SHUTTERSTOCK

André R. Barbosa, Professor, Oregon State University, EUA
Carlos Vieira, Perry da Câmara e Associados, Consultores de Engenharia LDA, Portugal
 

No final de janeiro de 2026, a depressão Kristin varreu Portugal continental com ventos extremos que, em várias regiões, atingiram valores máximos absolutos desde que há registo, causando danos graves numa área extensa. As chuvas intensas das semanas seguintes tornaram fevereiro o mês mais chuvoso dos últimos 50 anos, com cheias, rotura de diques e danos em infraestruturas. Este conjunto de eventos expôs vulnerabilidades estruturais e territoriais que urge sistematizar e mitigar. Não se trata de um fenómeno isolado. Nos termos da Resolução do Conselho de Ministros n.º 38/2026 [1], de 26 de fevereiro, a sucessão de eventos extremos tem vindo a provocar danos de grande extensão e complexidade, com impacto significativo na atividade económica e na capacidade financeira de diversas entidades publicas e privadas. Este padrão de recorrência exige uma resposta estruturada ao nível das normas, do reforço do parque edificado existente e dos mecanismos de financiamento da recuperação.

As projeções do Sexto Relatório de Avaliação do IPCC [2] confirmam uma tendência inequívoca de aumento da intensidade dos eventos climáticos extremos, com implicações diretas para o setor da construção. Para Portugal, estas projeções traduzem-se numa maior exposição a ventos extremos, cheias fluviais, erosão costeira e eventos de precipitação que excedem a capacidade dos sistemas de drenagem, dimensionados para climas históricos, já não representativos dos níveis de ação atuais e futuros. 

Nos Estados Unidos, décadas de exposição a furacões de grande escala (Andrew, 1992; Katrina, 2005; Irma e Maria, 2017; Ian, 2022) geraram um corpo de conhecimento técnico e operacional sem paralelo. O presente artigo sistematiza as principais lições aprendidas nesse contexto e identifica oportunidades de transferência para Portugal, num momento propício, dada a publicação da 2.ª geração de Eurocódigos Estruturais, a implementar até 2027. Estes documentos introduzem requisitos para a avaliação e reforço de estruturas existentes, criando uma oportunidade normativa que importa aproveitar.

Casos de estudo nos EUA

Em outubro de 2016, o Furacão Matthew provocou a subida do rio Lumber que manteve Lumberton, Carolina do Norte, inundada durante quase três semanas. O Center of Excellence for Risk-Based Community Resilience Planning (financiado pelo National Institute of Standards and Technology, NIST, nos EUA) liderou um estudo interdisciplinar ao longo de sete anos, que combinou a avaliação de danos estruturais com inquéritos socioeconómicos às famílias em zonas afetadas.

Do ponto de vista estrutural, os danos foram predominantemente classificados como de pequeno impacto, enquanto os danos não estruturais foram classificados como moderados. Foram desenvolvidas funções de fragilidade para este evento, expressas em função da profundidade de inundação relativa à cota de soleira do edificado, que constituem hoje uma referência metodológica para a modelação de perdas em cheias fluviais. As infraestruturas de transporte foram igualmente afetadas. A rotura de um dique e a consequente erosão junto ao encontro de uma ponte na autoestrada I-95 expôs as fundações da estrutura e obrigou ao corte temporário da autoestrada.

Por outro lado, a recolha de dados relativos à dimensão social do evento tem informado modelos de estudo de resiliência. O IN-CORE [3] é uma plataforma open source do Center of Excellence do NIST para modelação integrada de resiliência comunitária (sistemas físicos, sociais e económicos) e foi aplicado a Lumberton (NC), servindo de base metodológica para outros estudos futuros.

Os Furacões Irma e Maria (setembro de 2017)

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