A cobertura metálica do Estádio Príncipe Moulay Abdellah em Rabat

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Rabat ganhou, em 2025, um novo estádio de futebol preparado para receber competições internacionais. A arquitetura desenvolvida pela Populous assumiu uma envolvente parametrizada e luminosa, baseada num padrão de triângulos metálicos e integrada com iluminação LED, com um desenho que vai buscar referências tanto às folhas de palmeira entrelaçadas que marcam os grandes boulevards da cidade como à tradição artesanal marroquina. Do ponto de vista de estruturas, o tema central é a cobertura: grandes vãos, controlo de deformações, resposta ao vento e, acima de tudo, decisão e execução num prazo curto.

Em planta e em alçado percebe-se a opção de base: a cobertura não termina nas bancadas; estende-se para as fachadas e procura uma leitura contínua e homogénea. Esta decisão tem implicações diretas no sistema resistente e na coordenação de projeto: a estabilidade, os apoios e os percursos de carga têm de ficar contidos no perímetro do estádio, e a interface entre estrutura principal e secundária passa a ser um tema de desempenho e de prazo.

Para a engenharia, isto traduz-se numa exigência muito concreta: fechar cedo o conceito estrutural e as interfaces, porque em regime fast-track não há espaço para retrabalho sistemático. A estrutura principal tem de responder a vãos e deformações, mas também de definir desde o início onde se fixam revestimentos e sistemas, quais são as tolerâncias admissíveis e que sequência de montagem é compatível com o comportamento global.

O estádio integra um complexo desportivo que inclui ainda um estádio de atletismo, uma arena coberta e uma piscina olímpica. O projeto consistiu na reconstrução do antigo Estádio Príncipe Moulay Abdellah, no mesmo local, após demolição. A obra foi concluída em agosto de 2025 e preparada para utilização no Campeonato Africano das Nações (AFCON) de 2025 e no Campeonato do Mundo de Futebol de 2030, o que impôs um cronograma particularmente exigente. Neste enquadramento, a cobertura metálica tornou-se um caso de estudo de projeto orientado para execução: as decisões de conceção, pormenorização e montagem foram tomadas em paralelo, desde cedo, para reduzir incerteza em obra sem comprometer integridade estrutural nem qualidade arquitetónica.

Tipologia estrutural

A tipologia adotada é a de estádio-arena. Em vez de uma cobertura limitada às bancadas, a cobertura prolonga-se até às fachadas, criando uma envolvente integral e homogénea, com leitura próxima de uma casca. Estruturalmente, isto significa que os apoios e a estabilidade global devem estar inteiramente contidos no interior do perímetro do estádio, sem recurso a suportes exteriores.

A cobertura cobre toda a área de lugares sentados, para uma capacidade de 68 700 espectadores, e ocupa uma área total em projeção horizontal de 59 500 m². Para além da geometria singular, o estádio integra soluções tecnológicas avançadas — iluminação e sonorização compatíveis com eventos culturais de grande escala, tecnologias inteligentes de gestão de audiência e dois ecrãs de grandes dimensões nas bancadas norte e sul, em conformidade com requisitos da FIFA. Este programa técnico tem impacto direto no projeto: acrescenta cargas, condiciona localizações de equipamentos e reforça a necessidade de coordenação entre estrutura, secundárias e especialidades.

A estrutura principal

A estrutura da cobertura é integralmente metálica e organiza-se a partir de 56 pórticos transversais em treliça. Cada pórtico trabalha em balanço, com vãos compreendidos entre 69 m e 76 m, apoiando-se nas estruturas de betão do edifício e nas vigas cremalheira metálicas das bancadas.

Um balanço nesta ordem de grandeza é governado por rigidez e estabilidade, não apenas por resistência. Ações de vento com efeitos de sucção/pressão e combinações de carga que incluem o efeito de pessoas, equipamentos e revestimentos, tornam o controlo de flechas e o comportamento global decisivos para garantir desempenho, e para limitar riscos em fase de montagem, além de assegurar compatibilidade geométrica com a arquitetura e com os revestimentos.

Para garantir que estes elementos não se comportam como unidades independentes, os pórticos são interligados por diversas estruturas circunferenciais e por um anel triangulado no bordo interior da cobertura. O conjunto funciona como sistema monolítico: distribui esforços, estabiliza a bordadura interior e cria uma base resistente também para as estruturas secundárias da fachada, consolidando as formas arquitetónicas definidas.  (...)

Autores Nuno Telmo Lopes, Engenheiro de Estruturas, GRID International
Rui Ferreira Alves, Engenheiro de Estruturas, PROINDUSTRIAL

Leia o artigo completo na Construção Magazine nº 132, março/ abril de 2026, dedicada ao tema "Construções em Aço"

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