Projetar para um clima que já não existe: adaptação aos extremos climáticos
Exclusivo Assinantes

FOTO AGALLARDO/ PIXABAY
Maria Paula Mendes, Centro de Recursos Naturais e Ambiente (CERENA), Departamento de Engenharia de Recursos Minerais e Energéticos, Instituto Superior Técnico, Univ. de Lisboa
Inês Flores-Colen, Civil Engineering Research and Innovation for Sustainability (CERIS), DECivil, Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa
Enquadramento
As alterações climáticas constituem um dos maiores desafios para a engenharia civil no século XXI. A região mediterrânica é hoje reconhecida como um dos principais hotspots climáticos globais, apresentando taxas de aquecimento superiores à média mundial e uma exposição crescente a fenómenos extremos. O aumento da temperatura média, a maior frequência de ondas de calor, os períodos de seca crónica, a alteração dos regimes de precipitação e a intensificação de eventos meteorológicos extremos estão a comprometer os pressupostos estatísticos que, historicamente, suportaram o planeamento, o projeto, a construção e a manutenção do ambiente construído.
Na Península Ibérica, os cenários climáticos apontam para aumentos médios da temperatura da ordem de 2 °C em meados do século XXI, podendo atingir cerca de 4 °C até ao final do século, sobretudo nas regiões do sul e do interior (Carvalho et al., 2021). Paralelamente, prevê-se uma redução da precipitação média anual, acompanhada de períodos secos mais prolongados e de uma preocupante concentração da pluviosidade intensa (Santos et al., 2019). Estas alterações terão impactos severos na disponibilidade de água, na ocorrência de inundações, no comportamento dos materiais e no desempenho dos edifícios e das infraestruturas.
Em Portugal, a adaptação às alterações climáticas constitui uma prioridade das políticas públicas nacionais, materializada através da Estratégia Nacional de Adaptação às Alterações Climáticas (ENAAC) e do Programa de Ação para a Adaptação às Alterações Climáticas (P-3AC), que identificam como vulnerabilidades prioritárias as ondas de calor, os períodos de seca e escassez de água, os eventos de precipitação extrema, os incêndios rurais, a erosão costeira e os galgamentos costeiros (APA, 2019).
O efeito dominó: do risco isolado ao risco composto
Durante décadas, a avaliação do risco na engenharia centrou-se na análise individual de perigos naturais, como a cheia de cem anos ou a rajada máxima de vento. Contudo, a investigação recente demonstra que os impactos mais devastadores resultam da interação síncrona ou sequencial de diferentes fenómenos, originando os chamados extremos climáticos compostos. Projetar para perigos isolados já não é suficiente, uma vez que a combinação sinérgica de múltiplos fatores amplifica os danos em escala territorial.
Estes eventos compostos manifestam-se por meio de interações complexas, como ondas de calor severas associadas a períodos de seca extrema ou eventos de precipitação extrema sobre solos previamente ressequidos e impermeabilizados. Da mesma forma, assiste-se à sucessão de tempestades num curto intervalo temporal e à combinação perigosa de sobreelevação meteorológica, marés astronómicas altas e agitação marítima extrema na linha de costa. Em muitos casos, o impacto final no ambiente construído é muito superior à soma dos efeitos individuais de cada fenómeno.
Em Portugal, vários dos episódios de precipitação extrema mais severos estiveram associados à ocorrência simultânea de rios atmosféricos e de ciclones extratropicais intensos (Liberato & Trigo, 2014). O evento de precipitação recorde de dezembro de 2022 constitui um exemplo recente da vulnerabilidade do território a este tipo de fenómenos (Ferreira et al., 2025). Da mesma forma, a sucessão das tempestades Daniel, Elsa e Fabien demonstrou como eventos consecutivos amplificam os danos por meio da saturação progressiva dos solos, da aceleração do escoamento superficial e do subsequente colapso, por sobrecarga, dos sistemas de drenagem e de proteção hidráulica (Stojanovic et al., 2021).
Cidades e infraestruturas sob pressão sistémica
Os impactos climáticos escalam rapidamente do edificado individual para a malha urbana, colocando os sistemas de engenharia sob stress contínuo. Nas cidades, o aumento das ondas de calor é exponenciado pela elevada impermeabilização do solo e pela retenção térmica dos materiais de construção tradicionais, agravando o fenómeno da ilha de calor urbana. O resultado é um acréscimo drástico nos riscos à saúde pública e um pico insustentável nos consumos energéticos para o arrefecimento dos edifícios.
Paralelamente, a intensificação dos eventos de precipitação extrema exerce uma pressão sem precedentes sobre as redes de drenagem pluvial. Dimensionadas para padrões do século passado, estas infraestruturas falham perante os novos regimes de pluviosidade concentrada, o que multiplica as inundações urbanas e os danos estruturais em caves e fundações.
Os ventos extremos constituem igualmente um risco relevante para o
Exclusivo Assinantes
Para ter acesso ao artigo completo, faça
Login
Outros artigos que lhe podem interessar