Inteligência Artificial aplicada na engenharia civil

FOTO ANDREY POPOV-SHUTTERSTOCK
Este número da Construção Magazine aborda o incontornável e atual tema da Inteligência Artificial (IA) aplicada à construção.
A IA promete ganhos significativos em eficiência, qualidade e sustentabilidade ao longo de todo o ciclo de vida da construção. Nesta edição são apresentados exemplos promissores de soluções inovadoras desenvolvidas e implementadas por entidades portuguesas. Ferramentas baseadas em IA já são utilizadas para orçamentação automática, reduzindo erros e riscos, acelerando processos críticos. A industrialização da construção beneficia de algoritmos que otimizam os processos construtivos e os fluxos logísticos. A deteção de patologias construtivas em ativos existentes por meio de visão computacional permite realizar inspeções frequentes e céleres. Também a análise de padrões de utilização de edifícios, com impacto na eficiência energética, começa a ganhar expressão. Estes casos específicos somam-se aos usos generalizados da IA generativa na preparação e análise de documentos, que já transformam tarefas administrativas e técnicas.
Contudo, a implementação da IA acarreta riscos relevantes e importa reconhecer as suas limitações atuais. Com efeito, a Lei de Amara introduz um saudável ceticismo na percepção das tecnologias emergentes, alertando para a tendência natural de se sobrestimar o seu impacto a curto prazo e subestimar o impacto a longo prazo. Ainda assim, o efeito mensurável da redução da empregabilidade em diversas áreas de atividade associada à IA não deve ser desvalorizado com base na reconhecida especificidade do setor da Construção
A implementação generalizada da IA ao longo de todo o ciclo de vida da construção está ainda longe de ser uma realidade, e os seus efeitos na produtividade das empresas do setor são difíceis de antecipar, mas adivinha-se uma transformação profunda.
Para que isso aconteça, é essencial garantir a disponibilidade e a qualidade de dados estruturados. A capacidade de treinar modelos robustos depende da existência de datasets adequados, representativos e normalizados. Portugal tem um caminho longo a percorrer neste domínio. A fragmentação da informação, a ausência de padrões consistentes e a escassez de bases de dados abertas continuam a ser barreiras significativas.
Mas a adoção da IA não é apenas uma questão tecnológica. É também cultural e organizacional. Exige investimento em competências digitais, integração com processos existentes e uma cultura de abertura e inovação no setor. Requer igualmente um compromisso com a qualidade e o rigor, valorizando o contributo dos profissionais da construção e evitando a tentação de substituir esse conhecimento pelo chamado “workslop”: conteúdos superficiais, produzidos rapidamente, mas pobres em substância, que acabam por gerar retrabalho, reduzir a confiança e comprometer a colaboração.
A transição digital em curso na construção será um processo inevitavelmente contínuo e previsivelmente acelerado por uma combinação simbiótica de tecnologias. Os artigos reunidos neste número demonstram a relevância global da IA neste contexto e evidenciam o trabalho que a academia e a indústria nacionais têm desenvolvido para explorar o seu potencial.
Diretor da Construção Magazine / Professor na FEUP
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