Entrevista a Eduardo Cansado Carvalho

Entrevista e fotos por Christina Genet
Eduardo Cansado Carvalho licenciou-se em Engenharia Civil na especialidade de Estruturas pelo Instituto Superior Técnico em abril de 1974 e obteve o grau de Especialista em Estruturas em 1981.
Trabalhou durante 30 anos no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), no Departamento de Estruturas, na Divisão de Dinâmica Aplicada. Colaborou com o Centro de Engenharia Sísmica e teve um envolvimento significativo no desenvolvimento do Eurocódigo 8, que regula a segurança sísmica dos edifícios a nível europeu.
Presidiu à Comissão responsável pela elaboração dessa norma durante oito anos. Em paralelo com essas atividades, o Engenheiro Eduardo Cansado Carvalho mantém até hoje atividade como projetista e consultor na GAPRES - Gabinete de Projetos, Engenharia e Serviços, S.A.
Pode falar do seu percurso académico e profissional e explicar como chegou à sua atividade atual?
Licenciei-me em Engenharia Civil na especialidade de Estruturas no Instituto Superior Técnico há cerca de 50 anos – portanto, já tenho um percurso longo nesta área. Comecei a trabalhar no LNEC, no Departamento de Estruturas, na Divisão de Dinâmica Aplicada, que também abrangia a área da engenharia sísmica. Foi aí que começou o meu interesse por este tema da engenharia sísmica e da dinâmica das estruturas. Permaneci no LNEC durante 30 anos. Mais tarde, houve uma reorganização interna e foi criado um centro específico dedicado à engenharia sísmica. A partir daí, comecei a colaborar com o Centro de Engenharia Sísmica e tive um envolvimento significativo no desenvolvimento do Eurocódigo, em particular do Eurocódigo 8. Fui secretário da respetiva comissão e, mais tarde, acabei por presidir a essa comissão durante sete ou oito anos. Esta foi essencialmente a minha atividade no âmbito do laboratório. Paralelamente, mantive sempre uma prática como projetista e consultor, que é aliás o que faço atualmente aqui no GAPRES.
Pode explicar como foi concebido o Eurocódigo 8?
A partir dos anos 1980, comecei a participar na redação dos documentos do Eurocódigo 8, que é o regulamento para o dimensionamento sísmico das estruturas. Na altura, a União Europeia lançou a ideia de criar uma base comum, com o objetivo de uniformizar os procedimentos de cálculo e de projeto de estruturas, facilitando a livre prestação de serviços entre países. A ideia era simples: que um projetista finlandês pudesse fazer um projeto em Espanha, e um português em Itália, aplicando os mesmos princípios regulamentares. Mais tarde, este processo passou para o CEN (Comité Europeu de Normalização), precisamente porque se verificou que as diferenças entre os quadros regulamentares nacionais eram muito grandes. Entendeu-se então que seria preferível desenvolver o sistema a nível europeu, sob a forma de uma norma comum. O objetivo foi criar uma base regulamentar europeia unificada, permitindo, no entanto, que cada país mantivesse algum grau de autonomia. Isso é hoje assegurado pela existência dos chamados anexos nacionais, onde cada Estado define certos aspetos específicos, os chamados parâmetros de determinação nacional.
Portanto, as regras podem ser mais exigentes em países como Portugal, que têm um risco sísmico superior ao da Alemanha, por exemplo?
Exatamente. Os parâmetros de determinação nacional relacionam-se com aspetos que dependem da jurisdição de cada país, como os níveis de segurança ou com fatores climáticos, como o vento ou a neve.
Estes parâmetros variam. Nós, em Portugal, temos neve em algumas zonas, mas na Finlândia, por exemplo, a neve é um fator determinante no dimensionamento das estruturas. No caso dos sismos, a situação inverte-se. A Finlândia praticamente não tem atividade sísmica, enquanto Portugal, Grécia e Itália são países com risco considerável. Assim, no anexo nacional do Eurocódigo 8, definimos para Portugal qual é a ação sísmica a considerar. A base de cálculo é comum, mas cada país introduz os seus próprios valores numéricos para ajustar a ação sísmica à sua realidade.
Quais são concretamente as especificidades do anexo nacional português?
Em Portugal, temos um zonamento sísmico que indica um aumento da intensidade de norte para sul. Além disso, há uma particularidade: coexistem dois tipos de cenário sísmico distintos. Um é associado a sismos de grande magnitude, mas localizados no oceano, a uma ou mais centena de quilómetros do continente; e outro é relacionado com sismos de menor magnitude, mas com epicentro no interior do país. O anexo nacional português reflete esta realidade, considerando as características dinâmicas das estruturas. A ação sísmica é definida através dos chamados espectros de resposta, que indicam a aceleração previsível para diferentes gamas de frequência dos edifícios. (...)
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