Beleza que Resiste - New European Bauhaus e a resiliência climática do espaço público

Parque Alameda de Cartes

Há uma tensão não resolvida no coração do debate sobre resiliência climática urbana: a tensão entre o que é necessário e o que é desejável. Durante demasiado tempo, as soluções de adaptação climática foram apresentadas como escolhas funcionais — úteis, racionais, tecnicamente fundamentadas — mas raramente como escolhas belas. E as escolhas belas, por seu lado, raramente eram apresentadas como respostas sérias às pressões do clima.

O New European Bauhaus veio perturbar este equilíbrio. Não por ter inventado algo novo, mas por ter tido a coragem de afirmar, em voz alta e no centro do projeto político europeu, que a beleza é uma condição — não um luxo — de qualquer transição ecológica que queira ser duradoura. Que um espaço público que não é habitável, que não é desejado, que não é amado, dificilmente será mantido, cuidado e defendido ao longo do tempo. E que a sustentabilidade sem qualidade estética é uma sustentabilidade frágil.

Este artigo propõe uma leitura do NEB a partir do espaço público urbano e da sua relação com a resiliência climática — o campo onde, a meu ver, os três pilares da iniciativa (beleza, sustentabilidade, inclusão) encontram a sua expressão mais concreta e mais exigente.

O New European Bauhaus: Uma proposta cultural e política

Lançado pela Comissão Europeia em outubro de 2020, o New European Bauhaus (NEB) nasceu como um braço cultural do Pacto Ecológico Europeu — a ambiciosa estratégia de descarbonização da Europa para 2050. A sua premissa central é simples, mas de consequências vastas: a transição ecológica não pode ser apenas uma transição técnica. Tem de ser também uma transição estética, cultural e social.

A referência ao Bauhaus histórico — o movimento fundado em Weimar em 1919 por Walter Gropius, que propôs reconciliar arte, artesanato e produção industrial numa síntese coerente — não é decorativa. É programática. O Bauhaus recusou a separação entre o belo e o útil, entre o individual e o coletivo, entre a forma e a função. O NEB recorre a esse legado para propor que a Europa do século XXI faça o mesmo: que os edifícios, os bairros, as cidades e os espaços públicos que resultarão da transição verde sejam, simultaneamente, sustentáveis, inclusivos e belos.

Os três pilares são inseparáveis. A beleza sem sustentabilidade é ornamento. A sustentabilidade sem inclusão é privilégio. A inclusão sem beleza é assistencialismo. É na sua combinação que reside o potencial transformador da iniciativa — e é também aí que reside o seu principal desafio: operacionalizar três valores simultaneamente, num contexto de recursos limitados, pressões contraditórias e culturas técnicas ainda muito setorizadas.

O espaço público como campo de ensaio

Se há um lugar onde os princípios do NEB se tornam palpáveis — onde deixam de ser formulações políticas para se tornarem metros quadrados, árvores, pavimentos, sombra e temperatura — esse lugar é o espaço público. É ali que a cidade se revela. É ali que a resiliência climática tem de ser vivida, não apenas certificada.

O espaço público urbano está no centro de dois processos simultâneos e convergentes. Por um lado, é o principal termómetro das alterações climáticas à escala da cidade: as ilhas de calor urbano, os episódios de precipitação intensa, as vagas de calor prolongadas têm impactos imediatos e visíveis nas praças, ruas e parques. Por outro lado, é também o principal instrumento de resposta a essas mesmas alterações: a vegetação, a permeabilidade do solo, a presença de água e a gestão bioclimática do espaço público são hoje reconhecidos como infraestrutura crítica de adaptação climática. (...)

Autor José Miguel Lameiras
Professor em Arquitetura Paisagista
Faculdade de Ciências da Universidade do Porto

Leia o artigo completo publicado na Construção Magazine nº 133, maio/ junho de 2026, dedicada ao tema New European Bauhaus

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