Estarão as nossas casas e empresas preparadas para resistir às alterações climáticas?

FOTO SLPIX-LISBON/ PIXABAY
As projeções climáticas para Portugal nas próximas três décadas indicam uma intensificação significativa dos eventos meteorológicos extremos, com especial destaque para tempestades e ventos fortes. De acordo com estudos do Instituto Dom Luiz, do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) e do Copernicus Climate Change Service, cenários de emissões elevadas apontam para um aumento da frequência e intensidade destes fenómenos, particularmente em regiões costeiras e áreas urbanas. Estas dinâmicas estão associadas a alterações nos padrões atmosféricos induzidas pelo aquecimento global, que favorecem a ocorrência de sistemas tempestivos mais energéticos e potencialmente mais destrutivos.
A evidência empírica recente em Portugal continental reforça esta tendência projetada. Eventos como as tempestades Gong (2013), Leslie (2018) e a sucessão de tempestades durante o inverno de 2025/2026 evidenciam impactos crescentes ao nível de infraestruturas, interrupções de serviços e perdas económicas. Em particular, o chamado “comboio de tempestades” mais recente resultou em perdas seguradas estimadas em cerca de 1,3 mil milhões de euros, um valor que ultrapassa a soma de todos os danos seguros associados a eventos extremos das últimas duas décadas, indicando uma alteração estrutural do perfil de risco climático no país.
A caracterização precisa das velocidades máximas do vento em eventos extremos permanece um desafio relevante do ponto de vista científico e operacional. No caso da tempestade Kristin, ocorrida em janeiro de 2026, foram registadas rajadas superiores a 150 km/h pelas estações do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA). Contudo, estes valores podem não representar os máximos efetivamente atingidos, devido a limitações associadas à distribuição espacial das estações de observação e à elevada variabilidade local dos ventos, particularmente em contextos orográficos complexos ou zonas costeiras.
Adicionalmente, dados provenientes de estações meteorológicas não oficiais e sensores privados indicam a ocorrência de rajadas potencialmente superiores, em alguns casos acima de 160 km/h. Embora estes registos careçam frequentemente de validação institucional, a sua consistência espacial sugere que os sistemas de monitorização convencionais podem subestimar os extremos locais. Situação semelhante foi observada durante a tempestade Leslie (2018), em que, apesar do valor oficial máximo de 176 km/h registado na Figueira da Foz, foram reportados valores superiores em medições não certificadas. Estas discrepâncias evidenciam a necessidade de densificação da rede de observação e de integração de fontes alternativas para uma avaliação mais robusta dos ventos extremos.
A análise da ocorrência de tempestades severas recentes em Portugal sugere uma alteração nos períodos de retorno associados a eventos de elevada intensidade. Historicamente, tempestades com rajadas superiores a 150 km/h eram consideradas raras, com períodos de retorno estimados superiores a 30 ou 40 anos. Esta caracterização baseava-se em séries históricas relativamente limitadas e em condições climáticas menos propensas à intensificação de extremos.
Contudo, a ocorrência de eventos de grande magnitude num intervalo temporal relativamente curto — como as tempestades Leslie (2018) e Kristin (2025/2026) — aponta para uma redução destes períodos de retorno. Estimativas mais recentes sugerem que eventos com características semelhantes poderão passar a apresentar períodos de retorno entre 10 e 20 anos, refletindo uma maior frequência de extremos meteorológicos intensos. Esta evolução é consistente com os cenários climáticos projetados por entidades científicas, que antecipam não apenas o aumento da intensidade dos fenómenos, mas também a sua recorrência mais elevada.
Estas alterações têm implicações relevantes para a modelação de risco, nomeadamente na calibração de distribuições de frequência, na avaliação de perdas extremas e na definição de estratégias de adaptação. Em particular, para o setor segurador, tornam-se necessárias revisões dos modelos probabilísticos, ajustamento de prémios e reforço das estratégias de resiliência, face a um perfil de risco caracterizado por maior incerteza e maior exposição a eventos severos.(...)
Autores Tomé Pedroso, Colíder do Impact Center for Climate Change e Assessor da Comissão Executiva, Fidelidade – Companhia de Seguros, S.A.
Rui Esteves, Colíder do Impact Center for Climate Change e Diretor-Geral Técnico Não Vida e Vida Risco, Fidelidade – Companhia de Seguros, S.A.
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