Construir com inteligência natural e artificial: o desafio da aplicação da inteligência no setor da construção

FOTO ALLISON SAENG/ UNSPLASH

A experiência, a criatividade e o julgamento dos profissionais humanos da construção, continua a ser insubstituível. Não é que não seja possível, com tecnologia e no futuro, emular estas características. Mas será que assim o queremos? O verdadeiro desafio não está apenas em adotar tecnologia, mas em harmonizar o saber humano com algoritmos avançados, criando processos colaborativos em que engenheiros, arquitetos e gestores trabalham lado a lado com sistemas inteligentes.

Esta simbiose permite antecipar falhas, otimizar recursos, reduzir desperdícios e aumentar a sustentabilidade dos projetos, demonstrando que o futuro da construção não é apenas digital, mas profundamente inteligente, fundindo a perceção humana com a análise preditiva e a automação avançada. Será possível beneficiarmos de uma inteligência artificial geral sem grandes riscos? Até que ponto podemos estar seguros de que estas ferramentas não irão causar mais problemas que aqueles que pretendem resolver?

Tecnologicamente falando, já se consegue perceber como se pode emular o ser humano: a experiência humana pode ser vista como uma espécie de base de dados massiva e dinâmica, onde cada perceção, emoção, interação ou vivência funciona como um registo contendo múltiplos campos de informação, como contexto, resultado, comportamento e sensação associada - tal como uma base de dados treinada com um algoritmo de inteligência computacional; a criatividade humana pode ser equiparada a modelos em grandes volumes de dados diversificados e permitir que combinem, modifiquem e extrapolem padrões de forma inovadora, simulando processos de associação e recombinação de ideias semelhantes aos do cérebro humano e ajustar outputs com base em feedback e objetivos definidos, tal como um humano faria; o julgamento humano pode ser visto como a tomada de decisões sobre um conjunto de critérios, uns mais subjetivos, outros mais objetivos, com ponderações potencialmente diferentes.

A resposta à questão mais fundamental é que não há certezas de que não possamos ser substituídos por máquinas e que depende de nós adaptarmo-nos às circunstâncias, da mesma forma que o trabalhador da linha de produção da fábrica de sapatos teve de se adaptar à automatização da fábrica, recapacitando-se e não concorrendo pela mesma posição com um “robot” (seja ele software, hardware ou os dois). Daí que seja necessário pensar-se que não devemos apenas saber usar um prompt de uma inteligência artificial generativa qualquer. Tal não vai ser considerado como sendo uma qualificação, mas apenas uma forma de linguagem, interação ou de aceder a informação. Teremos, por isso, que nos adaptar, tornar úteis e aportar valor a esta nova forma de fazer as coisas.

A indústria da construção vive uma fase de transformação profunda, marcada pela digitalização, pela pressão regulatória para reduzir emissões de carbono e pelo desafio de aumentar a produtividade num setor tradicionalmente conservador. Assim tem de ser porque foram muitos anos quase sem evolução tecnológica e até com um pequeno decréscimo de produtividade. E por isso mesmo, enquanto a sociedade discute o impacto da inteligência artificial generativa, a verdadeira revolução na construção pode acontecer noutros domínios, menos visíveis, mas de aplicação prática direta. Trata-se de uma inteligência aplicada ao planeamento, à monitorização, à industrialização e à sustentabilidade, que promete redefinir a forma como projetamos, construímos, operamos e desconstruímos edifícios e infraestruturas.

A inteligência artificial tem aplicações de visão computacional, análise preditiva, integração com modelos BIM, modelação automática por nuvens de pontos, criação de gémeos digitais, robótica, otimização de processos de pré-fabricação, controlo de qualidade automático ou até avaliação do ciclo de vida de materiais e edifícios. Cada uma destas dimensões contribuirá para a resolução de problemas concretos da construção: falta de competitividade, falta de mão-de-obra, atrasos em obra, custos acrescidos por retrabalho, falhas de manutenção inesperadas, desperdício de materiais, consumo excessivo de energia ou incumprimento de requisitos ambientais. (...)

Autor: João Moutinho
Diretor Executivo BUILT CoLAB

Leia o artigo completo na Construção Magazine nº 131, janeiro/ fevereiro de 2026, dedicada ao tema "Inteligência Artificial na Engenharia Civil"

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