Conversas: Rita Moura e Fernando Branco

Esta conversa com Rita Moura e Fernando Branco elucida-nos não só acerca do papel de promoção da construção portuguesa que a Plataforma Tecnológica Portuguesa
da Construção (PTPC) pode desempenhar mas também acerca da importância que a engenharia portuguesa tem no mundo, um dado já reconhecido internacionalmente.

Em que frentes atua a PTPC?

Rita Moura (RM) – A Plataforma Tecnológica Portuguesa da Construção (PTPC) tem permitido estabelecer uma rede interdisciplinar com o envolvimento de todos os stakeholders da área da construção. Isto acontece na área das empresas, que são quem lidera a associação, como das universidades e também do lado da sociedade, donos de obra, etc. Este entrosamento tem dado muito bons resultados porque tem havido uma convergência de interesses e é dessa convergência que surgem as melhores
soluções. Temos uma candidatura ativa para a formação do cluster Arquitetura, Engenharia e Construção porque entendemos que estas áreas têm uma imagem muito boa no mundo, um pouco fruto da nossa história como povo. Não há dúvida de que deixámos um rasto de construção pelo mundo inteiro que é reconhecido por todos. As nossas empresas também estão presentes em todo o mundo e especialmente nos países onde deixámos esse rasto do passado. Continuamos a trabalhar nesses países, onde temos ligações fortes, mas também noutros Países. A engenharia portuguesa, face à dimensão do país, que é muito pequena, tem uma expressão bastante significativa a nível mundial.

Internacionalmente, a qualidade da engenharia portuguesa é reconhecida?

RM – Os nossos estabelecimentos de ensino são reconhecidos e as nossas empresas também são reconhecidas internacionalmente. As nossas universidades são de excelência e as nossas empresas são tidas pelos pares como sendo muito especializadas, ainda que não o sejam pela dimensão, porque realmente não são empresas muito grandes à escala internacional. Posso dizer que as quatro maiores empresas de construção Portuguesas, em conjunto, são um sexto da maior empresa espanhola. No
entanto, em termos de especialização e do trabalho que oferecemos, somos reconhecidos mesmo por estas grandes empresas, isso posso afirmar. A construção Portuguesa tem oportunidades muito interessantes. O que é que nos pareceu interessantíssimo, não há dúvida de que a construção está em crise em Portugal, mas a tendência na Europa é para um crescimento – muito forte em alguns países. Nos países nórdicos, na Irlanda, na Polónia e mesmo em França e no Reino Unido, o crescimento está a
ser acentuado, não só na construção nova mas também na regeneração das construções existentes.

E qual a razão para Portugal ainda não estar a seguir esse caminho?

RM – Portugal já está no sentido de inverter o ciclo de grande quebra. Na Europa, essa retoma está a ser muito significativa em alguns países e tem havido um forte crescimento e até aposta em novas infraestruturas. A Noruega tem, agora, um plano de expansão das infraestruturas muito arrojado, fortíssimo. Não se trata apenas de uma perspetiva economicista, mas também uma perspetiva de equilíbrio social, de garantia de mobilidade e acessos mesmo a localidades com poucos habitantes. Claro está
que têm outras capacidades financeiras, de cada País tudo tem de ser adequado à realidade. Mas esse esforço exige também, da parte da inovação, uma ação muito importante na procura de soluções.

A tecnologia tem tido um papel muito importante, correto?

RM – Muito importante. Por exemplo, na Noruega existe um projeto de pontes flutuantes para evitar a execução de fundações, o que reflete a procura de soluções mais baratas e menos impactantes em termos ambientais, baseadas na inovação, que no fundo procuram responder às necessidades da sociedade e com menos impactes ambientais. Neste sentido, parece-nos que é da maior pertinência Portugal dispor de um cluster forte que permita profissionalizar a atividade que a PTPC tem estado a desenvolver e assegurar a manutenção dos centros de conhecimento de excelência existentes no país.

O que nos pode dizer sobre a engenharia portuguesa no mundo?

Fernando Branco (FB) – Eu começaria por falar do Conselho Europeu de Engenheiros Civis. Neste momento sou past-president desse organismo e cesso as minhas funções em outubro [2016]. Em novembro [2016], serei nomeado para a presidência da IABSE (International Association for Bridge and Structural Engineering). O
Conselho Europeu de Engenheiros Civis é uma organização essencialmente profissional, que junta as representações das Ordens dos vários países europeus e cuja principal função é atuar em Bruxelas, defendendo a classe. Não é uma organização sindical mas é usada para mostrar os nossos pontos de vista. No período durante o qual fui presidente atuou essencialmente em dois vetores: um foi o reconhecimento profissional dos engenheiros. O conceito de engenheiro civil em cada país da
Europa é diferente, desde o número de anos de formação ao modo como os profissionais podem exercer a profissão. Só para ter uma ideia, um engenheiro civil em Portugal, para ser engenheiro civil tem de estar inscrito na Ordem, e isto acontece essencialmente nos países mediterrânicos e de leste. Nos países do centro da Europa e do norte não é assim. A partir do momento em que a pessoa tem o título académico pode exercer e é responsável pelo que faz.

Nos países onde não é necessária essa inscrição, o facto de ela existir é valorizado?

FB – O problema é os engenheiros do centro da Europa virem para o sul porque têm de ser reconhecidos pela Ordem. Isto criou uma confusão a nível europeu. Sob grande pressão de Inglaterra, Alemanha, etc., este conselho europeu fez propostas que culminaram na diretiva do reconhecimento profissional. Esta situação resolveu-se à custa de reconhecimentos parciais, ou seja, um engenheiro hoje em dia pode vir para cá trabalhar e tem o reconhecimento garantido de forma quase automática. É feita
uma apreciação rápida do currículo só para trabalhar numa obra específica, ou seja, o profissional não passa a ser engenheiro civil em Portugal. O problema coloca-se, por exemplo, aos ingleses, que têm a chamada formação de banda estreita. Um engenheiro civil lá é de estruturas ou de geotecnia mas não sabe nada do resto. Ora, se ficasse inscrito na Ordem poderia fazer qualquer coisa. Outra coisa que consideramos muito positiva foi termo-nos tornado parceiros de uma organização da Comissão Europeia, chamada High Level Tripartite Strategic Forum. O seu papel é discutir com a Comissão Europeia e fazer propostas sobre a canalização do investimento no setor da construção. Esta estratégia contemplava, por exemplo, a reabilitação, mas era uma reabilitação essencialmente energética por pressão dos países do norte, que querem poupar dinheiro na energia. À custa disso e um bocado por minha iniciativa conseguiu-se que a reabilitação fosse também estrutural. Os países do sul têm o problema dos sismos e não é lógico estar a reabilitar um edifício em termos térmicos se não o reabilitarmos em termos estruturais. Há outras ideias saídas desse Forum, como as plataformas intermodais. Cada vez é mais importante as cidades terem fáceis ligações – aeroporto, comboio, barcos, etc., e ter essas redes nas cidades a  funcionar muito bem. Os caminhos-de-ferro representam outro setor importante para reduzir a circulação automóvel nas cidades. Importa haver um organismo independente para fazer estas propostas aos políticos. Aqui em Portugal já tivemos um Conselho Superior das Obras Públicas que teria, em tempos, tido essa função. É um conceito perfeitamente lógico. Já a IABSE, em que assumirei as funções de Presidente a partir de novembro, é uma organização completamente diferente porque
é uma organização técnico-científica. É uma organização mundial com representantes individuais de mais de uma centena de países. Organiza conferências, tem uma revista muito conceituada e recentemente organizou uma conferência, em Genebra, considerada a mais  inovadora feita nessa cidade. Convidámos pessoas que não tinham nada a ver com a engenharia - pessoas que falam do ambiente, da sociedade, e que viessem dar a sua visão sobre o que o engenheiro deve fazer. Em vez
do formato clássico, convidámos 10 pessoas, pusemo-las todas no palco e explicámos qual era o tema que iriam desenvolver. Demos 5 minutos a cada para falar sobre esse tema e depois entrou-se em discussão pública. Esta conferência demorou dois anos a ser preparada e mudou radicalmente o modo de fazer conferências. Foi muito mais interativa e as pessoas gostaram. Hoje em dia o engenheiro é cada vez mais polivalente. Deve estar próximo da sociedade e é assim que se pretende atuar.
Fazendo agora uma análise nacional, as nossas universidades dão uma formação muito boa aos engenheiros, que permite que eles se distingam internacionalmente. Os engenheiros portugueses estão, neste momento, espalhados por toda a Europa. Um ex-aluno meu que está na direção de uma obra de construção de viadutos em Aberdeen disse-me que os engenheiros que trabalham com ele são todos portugueses. O único ranking universitário que distingue departamentos é o ranking da  Universidade de Taiwan, e o Técnico surge em oitavo lugar a nível europeu, o que é significativo. Isto faz com que neste momento já comecemos a ter muitos alunos de Erasmus (por exemplo, eu tenho alunos de quase todos os países nórdicos a frequentar a cadeira que leciono). Existem também parcerias em desenvolvimento.
Estávamos com um projeto muito interessante de ensino simultâneo para uma universidade angolana, ou seja, dávamos as aulas aqui e elas eram transmitidas simultaneamente, mas agora o projeto está no limbo por causa da crise em Angola. É curioso que nós, no passado, nunca tínhamos dado valor ao ensino.  Preocupávamo-nos com a inovação e as consultorias mas de repente, com a crise, percebemos que o nosso ensino era muito valorizado, e portanto começámos a
“vender” ensino. Já agora, o Técnico concorria, como as outras universidades, a projetos de investigação financiados pela Europa, até o QREN limitar os financiamentos a toda a região de Lisboa por esta ser considerada uma zona acima da média em termos de qualidade de vida. Isso fez limitar os financiamentos a 40 por cento, mas a coisa mais curiosa não é isso. Quando se concorre a um projeto tem de se seguir um conjunto de diretivas preferenciais de áreas onde se pode concorrer e a região de Lisboa definiu um conjunto de direções perfeitamente surrealistas – há uma de Saúde e há também outra de Turismo onde se especifica, para um setor de investigação, algo como construir um novo centro de conferências em Lisboa. Há claramente uma tentativa de desviar dinheiro para objetivos específicos que não se percebem. Isto faz com que, neste momento, o Técnico ou a Universidade Nova de Lisboa não possam concorrer a projetos de investigação em Portugal.

RM – Eu acrescentava uma experiência num projeto em copromoção com o Técnico, na área do reforço sísmico, ser aplicado em Lisboa e para a Argélia, que foi reprovado. É um projeto interessantíssimo, que teve das notas mais elevadas em termos técnicos, e foi reprovado por não se inserir na estratégia de Lisboa. Isto é absolutamente absurdo.

FB – Os indivíduos que definiram essa estratégia não foram ouvir as entidades. O problema dos nossos políticos é muitas vezes esse: não ouvem e depois inventam, levando a situações perfeitamente aberrantes, a não ser que o façam de propósito.

RM – A questão fundamental é porque o ensino e a inovação precisam de uma perspetiva a longo prazo, de uma visão de futuro que não pode mudar de 4 em 4 anos. A estratégia tem de ser algo que perdura. Pode ser um plano geral que depois tenha planos de pormenor mas temos de ter uma visão, um rumo, e esse rumo é importantíssimo para o ensino. O que vamos ensinar às nossas crianças se não sabemos o que queremos para o nosso país no futuro? E em que é que vamos inovar se não sabemos o que vamos estar a fazer? Para a nossa atividade, ou seja, investigação, desenvolvimento e inovação, é absolutamente essencial saber o que vai acontecer no futuro, independentemente das cores políticas de quem estiver a tomar decisões. Um Conselho Superior estabeleceria a base dessa estratégia, que seria a base de trabalho das políticas para operacionalizar essas ideias da melhor forma. Eu penso que um dos grandes problemas que temos neste momento no nosso país é a constante indefinição, que gera ineficiências e entropias.

FB – Eu ando a batalhar para que a PTPC desempenhe esse papel. Tinha toda a lógica. Precisamos de ter um organismo independente, um cluster da área, que devia apresentar um conjunto de ideias sobre o que achamos que devem ser os investimentos públicos neste país.

Já foi feita alguma tentativa no sentido de estabelecer esse tipo de ponte?

RM – Ainda há pouco tempo fizemos o lançamento do caderno de síntese tecnológica de reabilitação de edifícios, que tem por trás uma estratégia para a reabilitação de edifícios. O Prof. Vasco Peixoto de Freitas da FEUP foi o coordenador deste documento, que reúne mais de trinta autores, das várias instituições dentro da PTPC e algumas até de fora. É um documento de síntese que reúne informação que permite a um decisor político traçar uma estratégia para a reabilitação com factos concretos. A publicação aponta, em termos médios, os custos das determinadas intervenções, o que permite estabelecer um verdadeiro programa estratégico. Estamos a fazer o mesmo tipo de trabalho em outras áreas da construção. Os nossos grupos de trabalho dispõem de peritos ao mais alto nível nas diversas matérias, permitindo desenvolver ideias muito interessantes, que no fundo poderiam sustentar o trabalho a desenvolver por um Conselho Superior de Obras Públicas e alimentá-lo de informação tecnicamente trabalhada, credível, sustentada e reconhecida por todos, e convergente em termos de ideias. É com base nesta cooperação e nesta convergência de interesses que surgem as melhores ideias, e eu subscrevo a ideia do Prof. Fernando Branco em relação ao papel da PTPC. Acho que nós estamos a trabalhar muito bem e há de facto um entendimento interessante entre todos.

Qual o papel da PTPC na Europa?

RM – Destacava, neste ano, a eleição para o Steering Committee da Plataforma Tecnológica Europeia da Construção, no fundo o umbrella da nossa plataforma. Pertencer ao Steering Committe é também uma grande honra para o nosso país e, no âmbito deste Steering Committee, foram-nos indicadas várias funções para participarmos. Infelizmente não temos disponibilidade para abarcar tudo o que nos foi pedido, como o acompanhamento do grupo de regeneração urbana ou do grupo de infraestruturas, como nos foi sugerido pelo SC. Não temos uma estrutura profissional que nos permita, neste momento, responder a isso. Esperemos que o reconhecimento do cluster se concretize e que isso nos permita depois abarcar estas iniciativas. Mas estamos, conjuntamente com uma empresa de projeto italiana (D´Appolonia), a desenhar a visão estratégica da plataforma europeia a longo prazo, algo que vamos extrapolar também para Portugal. Não há dúvida que há uma certa tendência, na Europa, para nos focalizarmos na sociedade, no indivíduo, e humanizar as nossas cidades, pelo que a regeneração urbana assume um papel fundamental. Há, de certa forma, um regresso ao passado, e uma tentativa de repovoar os centros urbanos para diminuir os tempos médios de transporte. Esta tendência é acompanhada pela questão mais futurista de introduzir as tecnologias de informação e de comunicação, a conectividade, as nanotecnologias, e aproveitar soluções altamente eficientes e absolutamente inovadoras.

Estas soluções já são usadas na Europa atualmente?

RM – Já estão a ser usadas na Europa, e em Portugal temos o Instituto Ibérico de Nanotecnologia, em Braga, uma estrutura de investigação importantíssima que nos permite investigar e desenvolver, abrindo novas oportunidades em termos de construção. A construção está realmente numa mudança de paradigma. Os materiais são outros, podem ser muito alterados ou podem mesmo ser incorporados materiais locais, como madeira, bambu, etc. Tudo isso deve ser equacionado e repensado. Temos de dar uma volta muito grande à forma como estamos habituados a construir. A PTPC está muito focada nesse desafio de inovação. As universidades ajudam-nos nisso e a inovação permite-nos competir em mercados muito mais desenvolvidos e de menor risco. Se as empresas estão, neste momento, em situações complicadas também é por estarem a trabalhar em países com um risco muito elevado.

FB – É isso que acontece ao nível dos engenheiros. Os engenheiros trabalham muito nos mercados dos países do norte, individualmente.

Mas as empresas internacionalizaram-se noutro tipo de mercado...

RM – Temos uma grande proximidade com os países de língua portuguesa e eu tenho pena de não continuarmos a trabalhar nesses países. Era muito interessante e é uma pena que esteja a acontecer o que está a acontecer.

São países com grandes necessidades e onde a Engenharia Civil faz muita falta...

RM – Eu e o Prof. Fernando Branco estivemos lá e sente-se que é necessário. A Engenharia nesses países é muito necessária e é uma pena que não esteja mais presente mas infelizmente não podemos resolver os problemas todos do mundo. Nos países da Europa, se realmente os nossos engenheiros são aceites por que razão as nossas empresas não o são? Eu estive numa obra em Londres, importantíssima do ponto de vista da geotecnia, onde o diretor de obra era um engenheiro português. Reconheci naquela obra as tecnologias que estão a ser usadas nas nossas empresas. Temos essas tecnologias todas e até muito mais avançadas, porque os terrenos, de certa forma, são mais fáceis de trabalhar nesses países. Tive também o privilégio de visitar a construção de uma central atómica experimental que está a ser construída em Cadarache, com energia proveniente de fusão nuclear (“limpa”). Trata-se de uma central experimental à escala de 1 para 2. É um projeto de investigação a nível mundial mas também é uma construção muito exigente, com betões de muito alta densidade para conter as radiações, que está perfeitamente ao nosso alcance. As empresas grandes da Europa que se envolvem nestes projetos de investigação vão estar na linha da frente quando se começarem a construir essas centrais a nível mundial. Nós temos a tecnologia mas temos de dar um salto e ter uma visão e aí a ajuda do Estado português em promover a engenharia de forma a que nós possamos estar presentes nesse tipo de projetos era muito importante.

Devemos então mudar o paradigma da nossa presença internacional ou mantê-la nos países onde já estamos habituados e conciliá-la com outros mercados?

FB Em cerca de cinco anos baixámos de 1500 para 300 alunos a frequentar Engenharia Civil a nível nacional. Neste momento estes engenheiros não têm trabalho em Portugal, portanto a única solução é ir trabalhar lá para fora. Isto já aconteceu na história portuguesa há alguns anos, só que antigamente havia colónias e os profissionais iam para as colónias. O meu pai, quando se formou, foi o único engenheiro do curso dele a ficar em Portugal. Estamos a viver um novo ciclo desse tipo. Mais tarde ou mais cedo, este decréscimo do número de alunos vai criar problemas às empresas a atuar no mercado exterior porque estes 300 alunos não vão chegar. Só para os serviços públicos, 300 engenheiros não chegam. Reformam-se mais do que isso por ano. Aliás, o ano passado já se sentiu uma ligeira subida a nível de candidatos o número de candidatos a engenharia civil. Já batemos no fundo, por isso já começou a subir ligeiramente. Entre os alunos que se vão formar agora, muitos hão de ir para o estrangeiro – aliás, a maior parte deles não se preocupa com isso. No entanto, começamos a formar poucos técnicos, o que depois vai asfixiar as nossas empresas e o nosso know-how, porque o know-how que temos na Engenharia Civil não é só o que se aprende nas universidades, é também a experiência que se aprende com os mais velhos na obra, no projeto, e tudo isso vai desaparecer. As empresas de projeto em Portugal quase desapareceram, mais do que as empresas de construção. Eram empresas que absorviam muitos engenheiros, que faziam lá a sua formação profissional. Estamos aqui com um paradigma um pouco complicado.

RM – E já para não falar da mão-de-obra especializada que estamos a perder. É uma pena estarmos a perder algo que é um valor intrínseco português. A construção é algo que se pode vender e vende-se.

FB – Quando se fala de exportação em Portugal, nunca se fala do que as empresas de construção e projeto faturam lá fora. Isso também é exportação e esses números nunca aparecem. Trata-se de entrada de divisas, para todos os efeitos.

RM – É entrada de divisas e poupanças nacionais. Estas pessoas que estão a trabalhar lá fora não estão no desemprego, e se estivessem no desemprego ganhariam muito bem, ou seja, o país teria de despender essas verbas. Não só há entrada de divisas como há também poupança. Nós fizemos esse exercício, e ainda assim, no conceito daquilo que são exportações de bens, temos uma boa performance.

FB – Os números da construção são claramente superiores, por exemplo, aos da indústria do calçado...

RM – Só as quatro empresas que constituem a Comissão Executiva da PTPC representam quatro por cento das exportações nacionais e nós temos no cluster 80 entidades. A indústria da construção é muito importante e a construção gera economia. Houve experiências eventualmente menos bem sucedidas no passado mas não há dúvida de que o investimento bem pensado e bem estruturado é dinamizador da economia e do bem-estar social, e isso está perfeitamente assente nas sociedades mais desenvolvidas, pelo que há que interiorizar essa situação. Tem de haver uma abertura muito maior entre as empresas, entre os donos de obra, entre as universidades. Há que funcionar em conjunto para apagar esses vestígios de falta de confiança. Há uma necessidade de recriarmos uma confiança entre todos os stakeholders. A sociedade devolve-nos aquilo que lhe damos. Tem de se restabelecer uma base de confiança em que todos trabalhamos em conjunto com toda a abertura e é essa a tendência a nível da Europa. Acho que trabalhar em conjunto é a única forma de fazermos qualquer coisa de válido.

Qual o ponto de situação da criação do cluster?

RM – Nós tivemos mais de 80 manifestações de interesse. Temos as grandes empresas, as pequenas, as universidades, as entidades, as associações, as Ordens, todos representados na área da Arquitetura, Engenharia e Construção. Aguardamos com expectativa o resultado deste reconhecimento, cientes, no entanto, de que independentemente do resultado o nosso rumo vai manter-se. Pode é variar a intensidade da nossa ação. Obviamente que o reconhecimento do cluster vai permitir profissionalizar diversas atividades, e daí darmos uma resposta muito mais intensa. Claro que se o cluster for aprovado teremos o nosso observatório de vigilância tecnológica assegurado, a funcionar como deve ser, teremos os nossos centros de conhecimento online para as diversas áreas do conhecimento na construção, etc. Vamos ter projetos muito interessantes da área do BIM, na área do LEAN na construção, e há também questões ambientais que queríamos desenvolver, no âmbito dos protocolos de emissões de dióxido de carbono e uso eficiente de recursos. Há uma série de trabalho que pretendemos desenvolver mas que precisa de financiamento e equipas próprias a trabalharem a tempo inteiro. Se este financiamento não vier teremos de procurar outras fontes e o processo será mais lento.

Sobre os entrevistados

Rita Moura é licenciada em Engenharia Civil pelo Instituto Superior Técnico e é quadro da Teixeira Duarte desde 1986. Preside atualmente à Plataforma Tecnológica Portuguesa da Construção, que tem como missão a promoção da reflexão sobre o setor e implementação de iniciativas e projetos de investigação, desenvolvimento e inovação.

Fernando Branco é Professor Catedrático no Departamento de Engenharia Civil e Arquitetura do Instituto Superior Técnico. Integra a direção da Associação Portuguesa de Engenharia de Estruturas e é vice-presidente do Conselho Europeu de Engenheiros Civis, cargo que deixará este ano, passando a ser presidente da IABSE.

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