Construções Icónicas em Madeira - Os Templos Budistas e os Santuários Xintoístas japoneses

Neste artigo mantemo-nos focados no Japão e nas suas construções icónicas em madeira.

Desta vez, focamo-nos nos Templos Budistas e nos Santuários Xintoístas que, em muitas situações, representam exemplos das construções mais antigas em madeira do Mundo.

A análise mais detalhada concentra-se na prefeitura de Nara, perto de Osaka, situada na região de Kansai que, juntamente com a região de Tóquio, constitui a zona mais povoada da ilha central japonesa de Honshu e também de todo o Japão.

Como exemplo de Templos Budistas, apresentamos o templo Todai-ji, considerada a maior construção em volume em madeira do Mundo, e o templo Horyu-ji, situado a cerca de 10 Km a Sudoeste de Nara e que integra algumas das construções em madeira mais antigas do Mundo.

Como exemplo de Santuário Xintoísta, apresenta-se o “Kasuga Taisha Shrine”, situado na cidade de Nara, não só porque representa um bom exemplo deste tipo de construção na cidade de Nara mas também porque se situa junto à Floresta de Kasuga-Yama, considerada também uma das florestas urbanas, originalmente preservadas, mais antigas do mundo.

O artigo baseia-se sobretudo na referência bibliográfica [1] identificada no final, em diversas pesquisas na Wikipedia e em sites de informação geral, bem como na experiência do autor que visitou o local em 2008.

Arquitetura tradicional patrimonial no Japão

Os edifícios no Japão são maioritariamente construídos em madeira.

Os edifícios com maior interesse histórico e patrimonial incluem os Templos Budistas, os Santuários Xintoístas, os Palácios e os Castelos, todos construídos à base de madeira.

Muitos edifícios antigos de cada uma das referidas categorias estão atualmente classificados como Património Mundial e também como Património protegido Japonês. Os sítios e os monumentos classificados incluem ruínas e os respetivos locais envolventes.

Atualmente, estes locais são mantidos e periodicamente reconstruídos em muito boas condições e o Japão encontra-se inclusive num processo de recuperação total ou parcial de alguns dos seus edifícios históricos mais emblemáticos (seguindo uma lógica de réplicas) destruídos ou muito danificados por diversos motivos ao longo da sua história.

Budismo e Xintoísmo e Arquitetura tradicional no Japão

O Budismo japonês tem origem na China e foi introduzido no Japão no século VI. O Xintoísmo representa a religião tradicional japonesa.

Um santuário Xintoísta representa um conjunto edificado cujo destino principal é alojar um ou mais Kami. Os Kami representam os espíritos ou fenómenos que são venerados na religião xintoísta. Representam elementos da paisagem, forças da natureza, bem como seres e qualidades que esses seres expressam (não apenas seres humanos). Também podem ser os espíritos de pessoas mortas. Em geral, os antepassados ilustres das diversas famílias mais importantes foram considerados Kami.

O Budismo e o Xintoísmo partilham as características fundamentais da Arquitetura tradicional japonesa, vista em termos gerais. As semelhanças funcionais entre os dois tipos de construções são também elevadas, embora as duas construções sejam iconograficamente bastante diferentes (por exemplo, no Xintoísmo a cor e alguns elementos decorativos como as lanternas têm um peso muito significativo, o que não ocorre nos Templos Budistas).

Funcionalmente, nos dois tipos de construções, a função principal não consiste na veneração do divino. Os edifícios mais significativos das duas religiões são usados para guardar objetos sagrados e não são acessíveis aos crentes em geral. Nestes templos, em geral, o acesso é limitado a um número reduzido de participantes e todos funcionam como mosteiros, onde reside a principal diferença para as Igrejas Cristãs.

As manifestações festivas coletivas não têm um caráter regular, como as Missas cristãs, e realizam-se sempre no exterior dos templos e Santuários.

Em grande parte da história do Japão as duas religiões puderam ser seguidas em conjunto e assim muitos locais funcionaram durante vários séculos como Templos e Santuários ao mesmo tempo.

Em 1868, no fim do período EDO, foi publicada uma lei de alguma forma anti-budista que tornou obrigatória a separação das duas religiões e que obrigou os locais a deixar de funcionar como Templos e Santuários ao mesmo tempo. Ocorreram então “transformações obrigatórias” na Arquitetura desses locais que diminuíram o seu valor histórico e patrimonial como resultado das demolições e adições efetuadas.

Hoje, os Templos Budistas e os Santuários Xintoístas têm características, estruturas e funções totalmente diferentes entre si, mantendo-se a integral separação entre as duas religiões. De qualquer forma, ambos representam unidades arquitetónicas relativamente semelhantes entre si, decorrendo a maior semelhança entre ambas do uso quase universal da madeira e do facto de serem concebidos para funcionar como Mosteiros, ou seja, como residência de religiosos.

Nara

Nara foi a primeira capital do Japão entre 710 e 784. Originalmente chamada Heiji-Kyo (cidade da paz) foi uma das principais cidades da Ásia no período de 74 anos em que foi capital. Situa-se na planície de Yamato, perto de Osaka.

Atualmente, tem cerca de 360 mil habitantes, enquanto a prefeitura de Nara tem cerca de 1,35 milhões de habitantes.

Mais informações sobre Nara e o seu património arquitetónico e natural podem ser encontrados em [1]. O sítio https://wattention.com (Wonderful Japan) constitui uma referência bastante interessante para aqueles que pretendem conhecer um pouco melhor o Japão em geral e obviamente também Nara em particular.

Templo Todai-ji

O complexo budista Todai-ji, ver figura 1, consiste numa grande sala de Buda (Daibutsuden), subtemplos, edifícios diversos, pagodes e portas construídos com base em estruturas porticadas de madeira (pilares e vigas de diversas formas e dimensões, ligadas entre si por ligações de marcenaria e em geral com ajuda de apoios indiretos (tipo cachorros). Foi acabado de construir em 752.

A sala do Grande Buda (trata-se da maior imagem de Buda sentado em bronze do Mundo) é normalmente considerado o maior edifício em madeira do Mundo.

Mais informação sobre este templo pode ser encontrada no seu sítio oficial (www.todaiji.or.jp).

Templo Horyu-ji

É considerado o berço do budismo japonês. É também normalmente associado ao local onde subsistem os edifícios mais antigos em madeira do Mundo, datados do século VII, ver figura 2.

Inclui um pagode de 5 andares, considerado o mais antigo pagode do Japão.

Mais informação sobre este templo pode ser encontrada no seu sítio oficial (www.horyuji.or.jp/en).

Santuário Kasuga-Taisha

O Santuário Xintoísta de Kasuga-Taisha, ver figura 3, foi fundado em 9 de novembro de 768, durante o tempo em que Nara foi a capital do Japão. O santuário manteve-se sempre ativo desde a sua fundação.

Em dezembro de 1998, os “Monumentos Históricos da antiga Nara”, incluindo o santuário de Kasuga-Taisha e a floresta de Kasuga-yama, que confina com o santuário, ver [1], foram designados “joint World Heritage site” da UNESCO. A Floresta de Kasuga-Yama constitui uma floresta sagrada, protegida pelos monges do santuário de Kasuga-Taisha desde 841 e, nesse contexto, preservada de forma autossustentável desde essa data.

Mais informação sobre o santuário pode ser encontrada no seu sítio oficial (www.kasugataisha.or.jp).

Conclusão

A madeira sempre constituiu o principal material usado na construção de edifícios no Japão e, por esse motivo, os seus principais monumentos representam hoje algumas das mais representativas e icónicas construções em madeira do Mundo.

Os Templos Budistas e os Santuários Xintoístas encontram-se entre esses conjuntos edificados. O Japão mantém-se fiel às suas origens e tradições. Hoje existem cerca de 100 mil santuários xintoístas no Japão.

No próximo artigo desta coluna concluiremos a nossa viagem ao Japão, explorando outras regiões e outras construções icónicas, os palácios e os castelos.

Para se perceber o caráter místico que alguns povos atribuem à madeira e às florestas é fundamental conhecer um pouco melhor a Arquitetura Japonesa.

Referências bibliográficas

[1] – UNESCO – Historic Monuments of ancient Nara – disponível em htpps://whc.unesco.org/en/list/870 (acedido em 16/1/2019)

Fotografias

[2] -  www.japantourguideblog.worldpress.com

[3] -  https://commons.wikimedia.org/wiki/

[4] -  https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=6069365

Títulos de figuras – indicativo

Figura 1 – Templo Todai-ji, na cidade de Nara [2]

Figura 2 – Templo Horyu-ji. na cidade de Ikagura, prefeitura de Nara [3]

Figura 3 – Santuário Kasuga-Taisha, na cidade de Nara [4]

Artigo publicado na Consrução Magazine nº89

José Amorim Faria

Membro do Conselho Científico da Construção Magazine / Professor na FEUP

Se quiser colocar alguma questão, envie-me um email para jmfaria@fe.up.pt

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