Arquitetura, património e projeto de reabilitação

A preservação do património arquitetónico e urbanístico são hoje, na Europa, imperativos tanto culturais, como ambientais, ecológicos e económicos. O valor das construções antigas evolui e altera-se muito rapidamente, hoje classificamos como património objetos, conjuntos e sítios, partes extensivas da cidade ou paisagens que ontem julgávamos correntes, ou até vulgares. A acelerada extensão cronológica, geográfica e tipológica do conceito de património reflete-se na atual diversidade de categorias patrimoniais.

O património cultural é um desígnio e uma oportunidade, mas também um problema: na era da globalização e do auge da economia neoliberal explodiu o consumo de património, que se torna apetecível para novas indústrias dependentes do turismo massificado e de um mercado imobiliário implacável. Intervenções imediatistas, muitas vezes traduzidas em fachadismo, tendem a reduzir a densidade narrativa das edificações, apagando irremediavelmente a sua autenticidade e a integridadw, ao mesmo tempo que fazem ressurgir fenómenos de segregação social.

As construções antigas são entidades complexas e pluri-estratificadas com valores culturais, sociais, ambientais, económicos e tecnológicos, que o projeto tem de considerar e integrar, construindo com o construído. Considerando o edifício como um palimpsesto a ler e a interpretar, importa identificar os elementos arquitetónicos essenciais que materializam a sua identidade e descodificar as suas metamorfoses evitando obliterar valores e criar desnecessárias antinomias, como quem procura desenhar uma nova poesia, que preserva antigos versos, e que nos (re)surge com íntima familiaridade.

Defendendo a especificidade de cada circunstância nunca generalizável no projeto sobre preexistências com valor cultural, apontam-se os seguintes passos metodológicos, interrelacionáveis:

  1. conhecimento exaustivo e rigoroso da preexistência;
  2. diagnóstico de problemas, anomalias e dissonâncias;
  3. projeto como ato de síntese analítica e criativa, fundado na seleção e salvaguarda de valores;
  4. obra, adaptando e compatibilizando soluções, e privilegiando empresas com experiência no setor;
  5. conservação preventiva e manutenção continuada ao longo do tempo.

Desenhar neste contexto implica, portanto, documentar com rigor o antes (a preexistência), esclarecer o durante (sublinhando o que irá desaparecer materialmente da história) e fundamentar o depois, assegurando também os processos de inspeção e manutenção futuras: uma reabilitação bem sucedida é apenas uma das muitas intervenções que ocorrerão num edifício antigo a que seja dado um novo futuro.

Projetar sobre o construído com valor cultural, implica representar e desenhar eficazmente a preexistência e fundamentar a coerência das alterações propostas, conjugando todas as intervenções de especialidade, procurando um fio condutor entre novo-antigo e desenhando uma nova e contemporânea unidade arquitetónica (porque a interpretação histórica será sempre um ato de plena contemporaneidade, i.e. dependendo do zeitgeist em que ocorre).

Sem pretensão prescritiva ou exaustiva, apontam-se abaixo alguns princípios metodológicos e processuais para a intervenção em preexistências com valor cultural.

Artigo em co-autoria com João Nuno Pernão (CIAUD, Faculdade de Arquitetura, Universidade de Lisboa) e Teresa Cunha Ferreira (Centro de Estudos de Arquitectura e Urbanismo, Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto)

José Aguiar

Membro do Conselho Científico da Construção Magazine / Professor na FAUL

Se quiser colocar alguma questão, envie-me um email para jaguiar@fa.ulisboa.pt

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