Projeto de Valorização, Conservação e Reabilitação das Termas Romanas de S. Pedro do Sul

O espaço termal romano de S. Pedro do Sul situa-se na margem do rio Vouga, a cerca de 500 metros da nascente de água termal. O edifício, de fundação romana, manteve até hoje grande parte da sua estrutura primitiva e encontra-se classificado, desde 1938, como Monumento Nacional. Através da análise dos aparelhos construtivos, dos tipos de alicerces e mesmo da relação espacial entre as diversas paredes, puderam identificar-se duas grandes fases de obras do período romano, que se conseguiram sintetizar nas plantas das duas fases.

Preservado da destruição

A contínua utilização do edifício como local de tratamentos termais, bem como a proteção de que foi alvo por parte dos monarcas portugueses, ajudou a preservá-lo da destruição. Mesmo já no séc. XX, em que deixou de ser utilizado como balneário, foi ininterruptamente ocupado. Na década de 30 funcionou ali uma Escola Primária, e nos anos 70 o espaço chegou a ser utilizado como café. O abandono e degradação começaram na década de 1980, quando passou a servir como armazém de barcos. Os sinais desta longa e diversificada ocupação ficaram marcados um pouco por toda a estrutura, com pequenas modificações como o rasgar de uma porta ou o entaipar de um vão. No entanto, a estrutura romana inicial prevaleceu, mantendo-se ainda grande parte da altura das paredes e os arranques das coberturas de época romana.

Proposta de intervenção mínima

O projeto de valorização, reabilitação e conservação teve como base a recuperação do edifício, propondo a intervenção mínima necessária para a sua utilização e correta perceção. A recuperação das características mais marcantes do ambiente do período romano foi trabalhada a partir da escala, da luz e da presença da água.

No primeiro volume, a nascente, recuperaram-se as dimensões originais, os sistemas construtivos e os materiais tradicionais. Recuperou-se, ainda, a geometria da fachada, nomeadamente a métrica de cheios e vazios, reconstruindo as paredes que ruíram. No volume a poente, que constitui o edifício de origem romana, optou-se por manter a ideia de ruína, trabalhada quer como vestígio arqueológico, quer como matéria expositiva. A sugestão da forma e escala do espaço romano é dada pela reposição da altura original do edifício, bem como pela construção de uma abóbada em tijolo que segue a configuração da abóbada romana original, marcada nas paredes de topo. A nova abóbada destaca-se das estruturas existentes, suspensa a partir da cobertura e sem tocar nas paredes romanas. O ambiente luminoso original das termas romanas é recuperado com a introdução de luz zenital, através de um lanternim inclinado a sul, captando a maior quantidade possível de luz para o interior.

Resgatar a importância da água

A importância da água no edifício termal é resgatada, voltando a ser o elemento central do espaço. Esta recuperação é feita na tentativa de recriar a atmosfera termal romana, imprescindível para a compreensão e leitura do espaço. O sistema de captação e condução da água é recuperado, permitindo que exista um circuito hidráulico por todo o edifício, associado a uma ideia de percurso. A água adquire assim uma conotação lúdica, cruzando-se com a história e a gravidade do edifício preexistente, numa nova leitura baseada em relações visuais e auditivas, indiciando percursos ou antevendo espaços.

Fotografia: José Campos

João Mendes Ribeiro

Membro do Conselho Científico da Construção Magazine / Professor na UC

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