“É preciso criar incentivos para atrair profissionais da construção civil”

O diretor-geral da GesConsult, Nuno Garcia, defendeu, em entrevista à agência Lusa, a criação de incentivos para atrair profissionais da construção civil que estão fora do país, setor que sofre “transversalmente com a falta de recursos humanos”.

Questionado sobre que incentivos as empresas podem dar para atrair e recrutar profissionais qualificados que se encontram fora de Portugal, nomeadamente na área da construção civil, Nuno Garcia disse que, no caso específico da consultora que lidera, tem procurado “estender alguns benefícios que ainda não são tradicionais na construção civil e que, de certa forma, reforçam” o interesse da empresa na captação de alguns perfis.

“Temo-nos disponibilizado para suportar deslocações diárias para as pessoas estarem próximas da família ou para apoiar o pagamento da renda, quando se trata de atrair talento que se encontra noutras cidades”, mas “também pode dar-se o caso de o acordo incluir o pagamento do voo de regresso ao país ou de apoiarmos a pessoa com a procura de um alojamento temporário, até se estabelecer”, exemplificou o diretor-geral da GesConsult.

Estes “são bónus adicionais ao salário e que podem ser 'deal breakers' numa negociação”, acrescentou.

Nuno Garcia sublinhou que “o setor da construção civil sofre transversalmente com falta de recursos humanos, sejam mais ou menos qualificados, o que faz com que seja um desafio enorme encontrar profissionais disponíveis no mercado”.

Aliás, “existe uma procura elevada de engenheiros civis, resultado da falta de formação e da elevada emigração verificada na última década”, apontou o responsável, adiantando que “o mesmo se verifica em todo o tipo de mão de obra específica da construção, como sejam carpinteiros, serralheiros, canalizadores e até serventes”.

Questionado sobre se há alguma estimativa de quantos profissionais faltam na área da construção civil em Portugal, o gestor referiu que “os dados mais recentes” a que teve acesso “apontam para a necessidade de 80 mil trabalhadores” no setor.

“Mas acredito que nem cem mil sejam suficientes para dar resposta a tudo, nomeadamente se acreditarmos que vão executar todas as obras públicas previstas e assegurar a concretização do Plano de Recuperação e Resiliência na sua plenitude”, disse.

Já sobre o que estes profissionais procuram para vir trabalhar em Portugal, Nuno Garcia salientou que, quando trocaram o país por outros, “estas pessoas foram em busca de trabalho garantido, com vencimentos mais altos do que aqueles que se praticavam cá, em economias em crescimento”.

Atualmente, “graças ao esvaziamento de profissionais a que fomos assistindo no setor, a mão de obra encareceu muito e as ofertas em Portugal voltaram a tornar-se mais competitivas, apesar de ainda estarem longe do que é oferecido, por exemplo, em Inglaterra, França, Suíça ou Suécia, países para onde se deslocou muita emigração de Portugal”, prosseguiu o diretor-geral da consultora.

Mas o regresso também “é motivado por aspetos como as condições de segurança que o nosso país oferece e o facto de existir uma predisposição natural e vontade para regressarem a casa”, sublinhou.

Sobre se as empresas portuguesas estão conscientes da necessidade de criar incentivos para atrair recursos humanos, Nuno Garcia rematou: “Sem dúvida e cada vez mais”.

Aliás, “enquanto os recursos estiveram disponíveis, o setor caracterizava-se por salários baixos, pouco investimento em formação e falta de incentivos para se manter os trabalhadores nas empresas”, recordou.

Mas, “a partir do momento em que a falta de mão de obra começou a pôr em causa a concretização de investimentos, o cenário mudou de figura e as empresas têm-se tornado mais permeáveis a repensar a atração de talento porque precisam dele”, considerou, sublinhando ser “duro assumi-lo, mas é a realidade e a competitividade que existe hoje entre os 'players' do setor” está à vista.

“A experiência que temos no recrutamento de profissionais qualificados, tanto em Portugal como a partir de outros países, diz-nos que o paradigma de recursos humanos na construção civil, um setor em muitos aspetos considerado tradicional e resistente à mudança, está a evoluir rapidamente”, salientou, e é preciso “estar atento a isso e encontrar saídas que permitam o setor robustecer-se e continuar competitivo face a outros países”, concluiu.

O presidente da Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas, Manuel Reis Campos, também defendeu recentemente a tomada de medidas que permitem promover “uma maior mobilidade transcional dos trabalhadores”, uma vez que falta cerca de “80 mil” no setor.

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