Conversas entre Alexandre Pinto e Baldomiro Xavier

Uma conversa entre dois engenheiros geotécnicos sobre o passado, o presente e o futuro desta área. Se antes havia muito trabalho, agora há que apostar na diferenciação técnica para se conseguir ir longe, seja em Portugal ou fora de portas. E se for lá fora, também não há que dramatizar.

Construção Magazine (CM) – Quais são os aspetos mais determinantes da formação de um engenheiro geotécnico?

Baldomiro Xavier (BX) – A Geotecnia só é válida se for validada no campo. Naturalmente, a escola deve dar uma boa base genérica, que é a ferramenta-base para um engenheiro. Depois, deve haver cursos (não diria mestrados) de formação concretos, que dariam um complemento em áreas separadas e práticas aos engenheiros. Os acordos de Bolonha acabaram por ser uma grande regressão. O curso de Engenharia era de 6 anos, depois passou para 5, e agora são 3 mais 2 para completar o mestrado integrado. A parte de formação acaba por ser muito curta. Os alunos que são bons continuam a ser bons porque estudam por conta própria. No entanto, nem tudo o que se encontra na Internet tem fundamento. Neste momento, com estes  sistemas de redução do tempo, acaba por haver muitas cadeiras, muitos exames, aulas de

dúvidas e pouca parte letiva. A formação é um pouco limitada, quanto a mim. Os alunos, para serem bons, têm de trabalhar muito mais. A cada 3 ou 4 anos, eu admito uma série de engenheiros para formação e para se juntarem à nossa empresa, e noto que hoje existem profissionais muito bons mas a cultura geral é muito reduzida. São muito bons numa determinada área mas falta aquela componente generalista que um engenheiro

deve ter. Não podemos pegar num determinado livro e tirar os dados todos. Temos de formular o problema. Isto acontece, por exemplo, quando fazemos reabilitação, quer a nível de edificações quer, por exemplo, de taludes. Quando há uma chuvada mais forte, escorrega um talude e o caminho-de-ferro fica entupido, nós somos os primeiros a ser chamados. São acidentes fora do comum, que obrigam a equacionar o problema, o que exige uma série de conhecimentos. É isso que faz um engenheiro, e daí que o nosso trabalho se torne interessante. Outro fator aliciante é irmos para todo o lado, e deste modo conhecermos a maneira de processar de uns e de outros, o que nos obriga a estar mentalmente preparados para entender toda a gente: um argelino é diferente de um angolano ou de um moçambicano. Temos de dar soluções fáceis para todos poderem perceber e temos de fazer as coisas de modo a que os outros percebam, o que nos obriga a ter uma espécie de formação além da própria engenharia, que é comunicação.

CM – Eng.º Alexandre Pinto, acha que esta redução do tempo de formação está a produzir engenheiros com menos bases e menos preparados para o mercado?

Alexandre Pinto (AP) – A ideia de Bolonha é interessante porque pressupõe que os alunos trabalhem de forma mais autónoma e aplicada aos objetivos finais do Curso, pelo que a sua relação com os docentes se basearia, sobretudo e em contraponto com a prática enraizada, na orientação do estudo e no esclarecimento de dúvidas...

CM – E eles têm essa cultura?

AP – A questão é também essa. Não se pode chegar aos 18 ou 19 anos e dizer aos alunos que a partir daí vão começar a adotar uma metodologia de estudo completamente diferente. A ideia de base é interessante e é semelhante ao que já se aplica em alguns países da Europa. Trata-se de uma questão com forte componente cultural e que deverá ser trabalhada logo desde os primeiros anos na escola.

BX – Eu acho que aí não é caso para culpar os portugueses. Eu já tive formandos com cursos da Dinamarca, antes de Bolonha, que não eram melhores do que os nossos, eram iguais. Não creio que seja um fenómeno português, é geral. Acredito que este modelo possa ser ligeiramente mais barato para os países em termos de horas de formação, mas acontece o mesmo nos outros países. A formação dos outros não é melhor do que a nossa. A nossa universidade está a par das melhores do mundo, daquilo que eu tenho visto. Tenho estudado projetos feitos para a Arábia por americanos, por japoneses, por coreanos, e nós não estamos atrás de ninguém. Os bons alunos continuam a ser bons, mas com formação mais completa seriam melhores ainda mais cedo.

AP – O processo de aprendizagem pode ser encurtado, se os alunos forem sensibilizados para a importância da autonomia, da curiosidade pelo saber e, sobretudo, do gosto por aprender, sentido uma grande identificação com o Curso que escolheram. Estes valores estão, no essencial, subjacentes a Bolonha, mas muitos alunos continuam a ter “vida precocemente facilitada” porque os professores e, não menos importante, a família para tal contribuem. O encurtamento do processo da aprendizagem ao nível escolar, irá, contudo, acarretar uma ainda maior exigência na formação contínua, em particular nos primeiros anos da carreira profissional. Ainda assim, a “escola” de engenharia portuguesa está muito bem cotada a nível internacional, situação cada vez mais reconhecida. No entanto e tratando-se a engenharia de uma ciência de aplicação prática, o sucesso não tem a ver apenas com a formação inicial, mas também com o ambiente em que os engenheiros se integram, baseado na troca de experiências acumuladas e na formação contínua. A transmissão de conhecimentos, situação para a qual o papel da indústria tem sido fundamental, tem-se vindo a perder, consequência da forte redução da atividade nos últimos anos, a qual, por sua vez, tem determinado a desmobilização de alguns dos nossos melhores recursos. Se no amanhã precisarmos desses recursos eles estão lá fora e, na maioria dos casos, já não vão estar em países com reduzida capacidade para retenção sócio profissional. Após um período inicial de internacionalização forçada, os nossos engenheiros começam, gradualmente, a conseguir entrar nos países com maior capacidade de retenção. Para esta nova realidade, muito tem contribuído o nosso ensino. Creio, no entanto e como em quase tudo, que é possível melhorar porque podíamos dispor da organização dos nórdicos e dos anglo-saxónicos, combinada com a criatividade dos latinos. Esta combinação otimizada seria muito importante para a nossa engenharia. Sentimos, quando trabalhamos com colegas dos países anglo-saxónicos, que, em geral, estão muito formatados. Os respetivos técnicos quando são confrontados com situações com as quais nunca conviveram anteriormente, tendem a ter dificuldade na resolução. Ao contrário, o técnico nacional, em geral, sente-se confortável com a situação nova, porque a mesma constitui um estímulo e, sobretudo, um desafio.

BX – Há também as condições. Nós, portugueses, conseguimos resolver problemas em condições muito difíceis, que os outros não resolvem. Essa é a nossa capacidade, daí que o português lá fora seja bem visto.

CM – Qual é o enquadramento atual da Engenharia Geotécnica em Portugal e as perspetivas de futuro para esta área?

BX – Portugal, a nível de obras públicas, tem do melhor que existe a nível europeu. Beneficiámos da entrada para a Europa e dos consequentes fundos, da sabedoria dos outros e da organização. Temos muita capacidade de desenrasque mas a organização e a disciplina fazem falta. Continua a haver trabalho, a nível de reabilitação e de reforço. As obras estão feitas mas precisam de ser mantidas, e mantê-las não é deixá-las cair e depois reparar porque isso é muito mais caro. Não existe, de forma orientada, um cuidado com o património. Reparar pontes, por exemplo, é um trabalho difícil porque é preciso conhecer o que foi feito e às vezes o trabalho é demasiado antigo para nos lembrarmos como foi concebido. Ao tempo em que foram construídas, essas obras eram suficientemente boas, mas pode tratar-se de obras para 100 anos e já terem passado 150. Estão fora de prazo mas continuam a funcionar, agora para as tornar seguras é preciso algum trabalho e algum engenho. Às vezes é melhor fazer de novo mas também há que fazer um estudo económico capaz, o que nem sempre é fácil. Não é uma regra de três simples. A Teixeira Duarte está a reparar uma ponte no Brasil construída na década de 1930. Esteve parada por problemas de manutenção e esteve abandonada durante uma série de anos. Está agora a ser reabilitada e é uma obra muito difícil. Em obras deste género, muitas vezes estudamos o problema e chegamos à conclusão de que não é o que pensávamos, o que nos obriga a arranjar uma solução diferente da que tínhamos em mente mas que caiba no orçamento e no prazo. Há um plano A, B e C que inicialmente não existiam, vão surgindo pelo caminho porque a Geotecnia é uma ciência evolutiva, como costumamos dizer. O terreno vai revelando os seus segredos. Nós, os projetistas, temos de corresponder.

CM – Com esta saída de jovens para o estrangeiro, vamos continuar a ter capacidade para assegurar a manutenção destas obras públicas que temos em Portugal)?

AP – O país não dispõe de dimensão para continuar a executar grandes obras estruturantes como as da década de 90 e de metade da década passada, mas como as continua a explorar, terá, em consequência, de as conseguir manter, conservar e por vezes ampliar. Os técnicos emigram precisamente porque sentem que o mercado nacional não tem, pelo menos de momento, dimensão para acomodar tantos engenheiros. Apesar das dificuldades, seria importante que as universidades e as empresas, desejavelmente com o apoio estatal, tentassem instituir uma política que preservasse ao máximo a “escola” de engenharia nacional. Para estancar uma redução brusca de alunos e, não menos importante,

de docentes, deveremos assumir a formação de alunos nacionais que irão ser “exportados”, devidamente combinada com a “importação” de alunos estrangeiros para formação interna, política que desejavelmente deveria ser articulada com as empresas, em particular com as que operam em mercados externos, onde existem sérias lacunas de formação técnica. A importação de alunos iria certamente contribuir para um ainda maior fortalecimento da imagem da engenharia portuguesa. No que se refere ao tipo de trabalho que vamos ter no curto a médio prazo, o paradigma já mudou, privilegiando-se agora a reabilitação, o reforço e a conservação, mesmo que de forma reativa, como é o caso dos deslizamentos de terrenos em invernos rigorosos. A natureza nem sempre está alinhada as estratégias de desinvestimento. Pode não haver recursos para a prevenção, mas se, por exemplo, um talude importante deslizar não podemos deixar a infraestrutura afetada ficar durante semanas como inoperacional. Na área da geotecnia lida-se com a natureza e, portanto, existe,  comparativamente com outras áreas da engenharia, uma mais frequente necessidade de gestão do risco, associada a fatores como a imprevisibilidade, não só nas soluções, mas também nos timings das intervenções de reparação e de reforço. O que nos diz a experiência é que a melhor regra, em termos de gestão dos riscos técnicos e económicos, será sempre a de tentar ser proativo e não reativo. Neste enquadramento, se quisermos que os nossos melhores técnicos continuem ao serviço da engenharia nacional é preciso que, apesar das dificuldades atuais, as nossas em presas tenham capacidade para serem mais eficientes e, sobretudo, mais criativas. Situação, aliás, que não é exclusiva da engenharia. O tipo de obras que vamos ter de executar nos próximos anos em Portugal comporta, teoricamente, uma maior exigência técnica. Uma obra de reabilitação e de reforço é uma obra de conceção e de execução mais exigente do que uma obra a realizar de raiz. Eu penso assim que será na eficácia da cadeia produtiva e na diferenciação pela criatividade técnica que a engenharia portuguesa terá de apostar. Nós não conseguimos disponibilizar as mesmas condições que a maioria das empresas internacionais, mas temos de conseguir desenvolver, com menos recursos, soluções que os outros tenham mais dificuldades em conseguir conceber e executar. Neste enquadramento, conseguiremos ser reconhecidos internacionalmente e, não menos importante, motivar os nossos técnicos para continuarem nas nossas empresas.

BX – Eu acho que nós não devemos fazer disto um drama. A formação dos portugueses deve continuar. O mercado, hoje em dia, se não é Portugal é lá fora. Se tivermos organização e ajuda, em alguns casos, a nível de financiamento, a nível de capacidade, temos possibilidade de competir com essas empresas, porque até auferimos vencimentos mais baixos. Se temos mão-de-obra mais barata e as máquinas são as mesmas, conseguimos, seguramente, fazer melhor. O que não temos ainda é a confiança dos clientes porque ainda não temos, por um lado, currículo suficiente e, por outro, pujança económica. Quanto à parte técnica, penso que não ficamos atrás. Eu não fico triste quando vejo colegas nossos que vão para Delft e ficam lá a dar aulas. O futuro é o mundo e o limite é o céu. Acho que devemos continuar a formar os melhores, mesmo que acabem por ir para a Austrália ou outro lado. Que levem o bom nome de Portugal e da sua gente além-fronteiras. Naturalmente, formar muita gente tem custos e compromete as pessoas, mas se houver vocação, acaba por se triunfar de uma maneira ou de outra. O português consegue trabalhar em condições em que os outros não estão disponíveis e por isso acaba por ser decisivo.

CM – A nível de mercado interno, que desafios se colocam à Engenharia Geotécnica?

BX – Neste momento há poucas grandes obras. O mercado está difícil, por isso o esforço das empresas torna-se muito maior, e a competição às vezes pode ser fratricida. Já chegámos a concluir obras públicas porque a empresa que as iniciou não conseguiu acabá-las. Por vezes isso acontece porque o orçamento apresentado é ruinoso. Os nossos governantes antigamente ainda sabiam distinguir a valia técnica, mas hoje, talvez por pressão política, vão sempre pelas soluções mais baratas, que não são necessariamente as melhores, e já se demonstrou várias vezes que acabam por gastar muito mais dinheiro. Neste momento, reconheço falta de capacidade de avaliar por parte donos-de-obra. É preciso haver um júri com capacidade de olhar para as coisas pelo prisma técnico. Se já temos muitas obras feitas, se já temos muitas estradas boas, hoje interessa fazer ainda melhor, para a obra ser mais durável e mais económica ao fim de algum tempo. Talvez devamos apurar não só quem faz mas também quem aprecia.

AP – A geotecnia dispõe de particularidades que a distingue das outras áreas da engenharia, pelo que as propostas e soluções baseadas apenas no critério do preço comportam riscos elevados para os donos das obras. Se a análise for apenas na vertente do preço, que seja realizada do ano 0 até ao ano 100, incluindo os custos de manutenção e de conservação, eventualmente de demolição e de reciclagem. A tendência atual é valorizar o preço, apenas no momento da adjudicação e para os trabalhos associados à primeira execução, determinando uma situação de falsa economia, comparativamente com a adjudicação de uma proposta devidamente suportada numa capacidade técnica superior. Na realização deste tipo de análise, será igualmente importante que os donos de obra possam tirar o devido partido da capacidade técnica dos seus quadros. A diminuição do número de alunos a escolher os cursos de Engenharia Civil, além de estar associada ao redimensionamento do mercado nacional, tem igualmente uma conotação social importante. A imagem do engenheiro civil já esteve mais sólida e quais são as consequências? Diminuição do valor social da profissão, abrindo espaço para o uso e o abuso de critério associado ao preço, ao qual me atreveria a chamar de engenharia “low cost”. No caso da geotecnia, como já referi, este tipo de abordagem encerra ainda maiores riscos, pois as soluções para serem realmente seguras e económicas, exigem decisões que só podem ser tomadas com base na experiência acumulada e, muitas

vezes, durante a própria obra. Além de os técnicos, as empresas contratadas e os donos de obra terem de demonstrar que dispõem de competência técnica, a própria legislação deverá ser atualizada de modo a refletir, de modo objetivo, a compreensão de que existem certos tipos de trabalhos que, para serem realizados de forma segura e económica, só poderão ser afinados durante a própria obra.

BX – Os donos-de-obra também devem equipar-se com inteligência e capacidade técnica, que é muito importante. Não basta ter gestores para gestão de contrato e advogados para controlar. É preciso cumprir a lei mas é preciso também saber o que se cumpre. Cumprir não chega. É isso que é preciso salientar, e se houver alguma coisa que se possa mudar eu diria que é aí. A arte e o conhecimento são muito importantes na promoção de um bom produto, não é só o preço.

CM – Que conselhos dariam aos jovens que pretendam enveredar pela Engenharia Geotécnica?

BX – Em tudo o que fazemos temos de nos empenhar a fundo. Essa ciência serve para tudo. Uma pessoa com uma formação completa pode fazer vários tipos de trabalhos. Há 30 ou 40 anos as pessoas eram especialistas e só faziam um determinado tipo de trabalho. Hoje, com a capacidade de raciocinar, a pessoa é capaz de fazer tudo. Um profissional pode mudar de ramo ou de área de operação de um dia para o outro se houver oportunidade. Mas para isso tem de estar em campo. Se uma pessoa tem vocação para uma determinada área, deve ir para aí, mas não deve pensar que o resto do mundo não interessa. Nós podemos andar de burro à procura do cavalo mas a pé não apanhamos o cavalo.

AP – Hoje em dia os tempos não são fáceis e o grau de exigência é, em consequência, muito elevado. É assim importante que os jovens façam uma escolha, sobretudo, de acordo com a sua vocação natural. Como ponto de partida para a escolha pela engenharia geotécnica, destaco o gosto e a intuição pela engenharia em geral, desde a geologia, passando pela mecânica dos solos e das rochas, pelas estruturas, pela construção e finalizando na gestão de recursos. Embora com um campo de aplicação específico, a engenharia geotécnica é, talvez, a mais transversal de todas as engenharias. A necessidade de resolver problemas aguça o engenho, pelo que é fundamental que os futuros engenheiros sintam como um desafio o serem confrontados com a necessidade de resolução dos mais variados e, por vezes, inesperados problemas. Resumindo, diria que a engenharia geotécnica constitui uma atividade bastante aliciante e bastante dinâmica. Os terrenos, solos e rochas, apresentam, em particular num país como Portugal, um comportamento diversificado e singular. Em paralelo, os métodos de cálculo, as tecnologias e processos construtivos continuam em constante evolução. Não há dois projetos iguais e não há duas obras iguais. É aliciante para quem quer evoluir profissionalmente e para quem sente gosto pela gestão da relação entre a incerteza e a segurança.

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